"Os Educadores-sonhadores jamais desistem de suas sementes,mesmo que não germinem no tempo certo...Mesmo que pareçam frágeisl frente às intempéries...Mesmo que não sejam viçosas e que não exalem o perfume que se espera delas.O espírito de um meste nunca se deixa abater pelas dificuldades. Ao contrário, esses educadores entendem experiências difíceis com desafios a serem vencidos. Aos velhos e jovens professores,aos mestres de todos os tempos que foram agraciados pelos céus por essa missão tão digna e feliz.Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e se encantar com acolheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes"(Gabriel Chalita)

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Professores de SP decidem manter greve por mais uma semana

Os professores da rede estadual de São Paulo decidiram, em assembléia realizada na tarde desta sexta-feira (20), manter a greve por mais uma semana. Na próxima sexta-feira (27), a categoria se reúne novamente no Masp (Museu de Arte de São Paulo), região central da capital, para discutir os rumos da paralisação.

A decisão pela greve veio mesmo depois de a Secretaria da Educação ter anunciado reajuste salarial de 12,2% para a categoria. "O reajuste, sem dúvida, foi resultado da greve", afirmou Carlos Ramiro, presidente do Apeoesp, sindicato dos docentes do Estado. "Mas a proposta não contempla nossa reivindicação, nem acalma os ânimos dos manifestantes."Segundo a Secretaria da Educação do Estado, o reajuste salarial tinha sido decidido em março e o foi uma coincidência o anúncio ter sido feito um dia antes da assembléia dos professores.Os professores protestam contra um decreto, do governador José Serra (PSDB), que impõe limites às transferências dos educadores efetivos e determina que os temporários se submetam a provas para determinar quem terá preferência para assumir turmas no início do ano."Nós queremos um concurso público classificatório, e não eliminatório, para todos os professores de todas as disciplinas. Assim efetiva o docente na escola e não falta professor para certas matérias", disse a Apeoesp.A Secretaria disse que mantém a posição de que o decreto é irrevogável, porque "a intenção é beneficiar o aluno, já que quando o professor muda de escola, todo o projeto pedagógico também é modificado, prejudicando o estudante". Segundo o sindicato, cerca de 60 mil pessoas participaram da manifestação. O Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) estima em 5 mil manifestantes. Logo após a assembléia, os professores fizeram uma passeata em direção à Praça da República, passando pela rua da Consolação, rua Xavier de Toledo, Teatro Municipal e por um trecho da avenida São João.Na Praça da República, eles se juntaram a um ato público unificado de outras entidades da educação, como funcionários, diretores e supervisores de ensino. A reunião era para denunciar questões da educação, desde falta bibliotecas e laboratório nas escolas até salários.

Chalita nega valor gasto com formação de docente

Ex-secretário de Educação de SP diz que programa não teve R$ 2 bilhões e que informações dadas por sua sucessora estão ‘absolutamente erradas’


Maria Rehder, JORNAL DA TARDE


O ex-secretário da Educação do Estado de São Paulo Gabriel Chalita rebateu ontem as críticas feitas pela atual secretária, Maria Helena Guimarães de Castro, ao programa de formação continuada de professor.
O Teia do Saber foi criado em sua gestão, em 2003, e consiste na contratação de universidades e instituições de ensino para a oferta de cursos a docentes da rede.Segundo Chalita, o investimento feito nos últimos cinco anos no programa foi de cerca de R$ 580 milhões, e não de R$ 2 bilhões, como informado pela secretária em reportagem publicada ontem. “Os dados que a secretária deu estão absolutamente errados”, afirmou Chalita, que, procurado pela reportagem anteontem, havia respondido que “não tinha interesse em falar sobre o assunto”.

Maria Helena, por sua vez, disse ontem que não comentaria as declarações do ex-secretário.“Eu até gostaria de ter investido R$2 bilhões na Teia do Saber porque acho que formação de professor não é gasto, é investimento”, disse Chalita. “Alguns temas (dos programas de atualização de professores) eram gerais e outros específicos, cada diretoria de ensino do Estado trabalhava com dados do Saresp, reunia-se com os docentes e chegava à conclusão do que era mais importante.”Chalita aproveitou para provocar sua sucessora. “Acho triste a secretária colocar as coisas da forma que ela colocou, mas acho que é o momento de greve”, afirmou. “Eu fiquei cinco anos como secretário e nenhuma greve. A gente tinha um diálogo com a rede.”

REAJUSTE E CONCURSO

Em meio a uma greve dos professores, que já dura cinco dias, o governo enviou para a Assembléia Legislativa projeto para contratação de 70 mil professores com jornada semanal de 10 horas e anunciou que o piso mínimo dos docentes da rede estadual de 1ª a 4ª série, com jornada de 40 horas semanais, será reajustado em 12,2%.
Passará de R$ 1.166,83 para R$ 1.309,17. Os docentes de 5ª a 8ª série receberão um aumento de 11,16%. Irá de R$ 1.350,75 para R$ 1.501,50.
O reajuste inclui também a incorporação da Gratificação do Trabalho Educacional, beneficiando também servidores inativos. “Vamos gastar R$ 670 milhões a mais por ano”, afirma Fernando Padula, chefe de gabinete da secretaria.
Diretores e supervisores também receberão aumentos de 11% e 10%, com o salário-base passando para R$ 1.563,72 e R$ 1.803,93, respectivamente.
O salário dos funcionários de apoio também será reajustado em 5%. Secretários de escola, por exemplo, receberão, no mínimo, R$ 926,25.
A secretaria implantará este ano a política de bônus por mérito.
O valor já foi definido: até três salários adicionais.Carlos Ramiro, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), afirma que o reajuste será discutido hoje em assembléia. Padula diz que a negociação já foi encerrada.

sábado, 14 de junho de 2008

Novo livro de Gabriel Chalita


Sobre amor, rosas e espinhos





Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou. O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto." O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que sozinhos jamais poderíamos enxergar.O poeta soube traduzir bem quando disse: " Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!". Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos, socorreu-me em minha cegueira. Eu possuia e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha. Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos. Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las. Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois... Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do cultivo.Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras... Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas... Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos... ou não.



Padre Fábio de Melo

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Lançamento do novo livro de Gabriel Chalita

"Pedagogia da Amizade"

Nesse novo livro Gabriel fala sobre pessoas que sofrem ou praticam o bullying, a agressão física ou moral repetida e cruel, que ocorre principalmente no ambiente escolar.

Gabriel Chalita,tem como objetivo falar sobre a amizade como um caminho para educar com excelência, tanto em casa quanto na escola.


O LANÇAMENTO DESSE NOVO LIVRO SERÁ
data: 19/06/2008
Horário: 19h
Local: Livraria Cultura - Conjunto Nacional
Av: Paulista, 2073

O direito à educação Gilberto Dimenstein

Diante da bagunça, dois jovens de uma escola particular da cidade de São Paulo (o colégio Santa Cruz) logo perceberam que sua idéia de dar aula de filosofia para estudantes da rede pública estava condenada ao fracasso - a classe se dividia, basicamente, entre os que "zoneavam" e os silenciosos desinteressados. Foram todos salvos por uma música.
Na semana passada, em vez de começar a aula com falatório, os dois adolescentes puseram um rap para os alunos ouvirem e distribuíram a letra a eles. Conseguiram, então, motivar uma discussão sobre temas como violência, solidão e esperança. Nem parecia uma aula de filosofia - aliás, nem parecia uma aula.
A magia operada por aquela música revela o "deslumbramento pelas coisas belas" - essa expressão foi usada pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao justificar seu projeto, lançado na semana passada, que determina a exibição periódica de filmes nacionais nas escolas.
A única questão relevante na discussão lançada pelo governo federal sobre a possibilidade de mudar a legislação de incentivo cultural -uma bolada anual de R$ 1 bilhão- é a democratização do deslumbramento diante da beleza.

Um dos argumentos para a mudança da legislação é a crítica de que parte dos recursos canalizados pelas empresas vai para ações culturais destinadas a platéias de maior poder aquisitivo e nas regiões mais ricas.
Muita gente séria aceita essa crítica, mas vê com desconfiança (também corretamente) o risco de criar um fundo de cultura gerido apenas pelo governo, sujeito a vícios como a corrupção e o desperdício, sem contar os apadrinhamentos políticos. Um exemplo recente de má gestão de recursos foi o que ocorreu com o Fust, que, destinado a conectar escolas à internet, arrecadou nada menos que R$ 8 bilhões e, sem exagero, não serviu para quase nada.

Argumenta-se também (mais uma vez com razão) que os empresários se sentiriam menos estimulados a colocar dinheiro na cultura se não pudessem escolher os beneficiários e, assim, valorizar sua marca.
Já vi aquele tipo de experiência dos adolescentes que usaram o rap para dar aula de filosofia aplicada dos mais diferentes modos e nos mais diversos lugares, quase sempre com resultados estimulantes. É uma fórmula eficaz para desenvolver o prazer de conhecer. É certo que a arte não deve ser condicionada a nada, deve apenas ser a expressão livre do artista, mas a arte bancada com imposto deve ter uma contrapartida em educação pública.

Será divulgada nesta semana, durante seminário em São Paulo sobre lei de incentivo cultural, uma pesquisa do Datafolha que, entre outros pontos, mostra um forte crescimento da freqüência aos museus entre os paulistanos. Esse é um exemplo de dinheiro mais bem empregado.
De acordo com a pesquisa, 65% dos que foram a exposições neste ano são estudantes de escolas do ensino fundamental e médio; 47% pertencem às classes C, D e E. É claro que esse seria o recurso mais bem empregado se os professores soubessem (e poucos sabem) como usar aquela visita ao museu para tornar mais atrativo o que eles ensinam em sala de aula. Isso significa que as verbas de incentivo à cultura deveriam contemplar não só o acesso mais amplo aos bens culturais mas também a capacitação de educadores.

O direito à educação é, em essência, o direito ao deslumbramento permanente ante a vida. Nada melhor que a arte para servir de introdução a essa aventura. O deslumbramento com as coisas belas revela o que nós somos e o que podemos ser - por isso, e só por isso, aqueles meninos e meninas aceitaram discutir filosofia tomando como ponto de partida a letra do rap.


Jornal Folha de S. Paulo, 08/06/2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Quadrilha

João amava Teresa
que amava Raimundo
que amava Maria
que amava Joaquim
que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

[Carlos Drummondde Andrade]

domingo, 1 de junho de 2008

Pedagogia da Amizade


Já está marcado, para o dia 19 de junho, o lançamento do novo livro de Gabriel Chalita, "Pedagogia da Amizade". O local é a Livraria Cultura, na Avenida Paulista.


O livro "Pedagogia da Amizade"é uma extensão do pensamento pedagógico de Gabriel Chalita, iniciado em "Educação, a solução está no afeto" e "Pedagogia do Amor".


Com base em teorias da didática moderna e no pensamento filosófico de vários momentos da história da humanidade, o autor analisa os efeitos positivos da amizade nas relações sociais, a partir da premissa de que amizade é uma atitude que protege. O contraponto abordado, especialmente no ambiente escolar - mas sem desprezar o ambiente familiar - é o mal do bullying, fenômeno social que afeta crianças e jovens no Brasil e no mundo inteiro. Preocupado com a questão, Gabriel Chalita pesquisou, observou e entrevistou pessoas que sofreram agressões físicas e morais típicas de bullying, e traz um balanço lúcido e útil sobre a questão. Sua tese, no livro, é de que a amizade é uma atitude positiva que pode e deve ser desenvolvida, e que funciona como o melhor antídoto para o veneno social da violência. Gabriel Chalita analisa, também, experiências de fracasso e de sucesso, e indica as atitudes que governo, família e sociedade deveriam tomar.



UM TRECHO DO LIVRO -


Na atualidade, as questões que envolvem o tema da violência nas escolas têm motivado numerosas discussões e reflexões de educadores de várias partes do mundo. Há um clima de perplexidade diante de atitudes cruéis que ferem diretamente um indivíduo porque, indiretamente, ferem a sociedade.


Num contínuo fluir de exigências ora pessoais, ora grupais, a escola é palco de conflitos de toda ordem. Para solucioná-los, nem sempre bastam os saberes e as habilidades armazenados pela experiência, pois o problema surge invariavelmente como algo inédito no âmbito da vida escolar - para aqueles considerados corriqueiros, o ineditismo fica por conta do contexto e das pessoas envolvidas.


Quando a pauta é violência escolar, visualizamos trocas de xingamentos, palavrões, provocações verbais, desrespeito com o material alheio, depredação do patrimônio escolar, ameaças dirigidas aos professores e agressões físicas, propriamente, entre alunos (e mais raramente de alunos contra professores e vice-versa), como chutes, tapas, beliscões etc. Contudo, aqui, o cerne da questão é ampliar os conhecimentos e sensibilizar para uma violência que é silenciada pelo medo e está presente, infelizmente, no mundo inteiro. Trata-se do bullying, uma forma intencional e repetitiva de atitudes agressivas dentro da escola.


A palavra bullying é um verbo derivado do adjetivo inglês bully, que significa valentão, tirano. É o termo que designa o hábito de usar a superioridade física para intimidar, tiranizar, amedrontar e humilhar outra pessoa. A terminologia é adotada por educadores, em vários países, para definir o uso de apelidos maldosos e toda forma de atos desumanos empregados para atemorizar, excluir, humilhar, desprezar, ignorar e perseguir os outros.


O fenômeno bullying não escolhe classe social ou econômica, escola pública ou privada, ensino fundamental ou médio, área rural ou urbana. Está presente em grupos de crianças e de jovens, em escolas de países e culturas diferentes.


Sem equivalência na língua portuguesa, adotamos, no Brasil, o termo inglês bullying, que na França chamam de harcèlement quotidien, na Itália de prepotenza ou mesmo de bullismo, no Japão de ijime, na Alemanha de agressionen unter schülern e em Portugal de maus-tratos entre os pares. Muitos pesquisadores definem o fenômeno bullying como violência moral (uma adaptação do francês assédio moral).


Nas escolas, é um fenômeno complexo, muitas vezes banalizado e confundido com agressão e indisciplina. Exige observação atenta e presença constante, pois, normalmente, as vítimas são aterrorizadas em áreas da escola com pouca ou nenhuma supervisão. Estratégia premeditada, que contribui para que a vítima seja desacreditada. Ou que a ação desencoraje a vítima a falar da dor a outrem, ou que se passe muito tempo até que alguém perceba. Tempo suficiente para registrar a dor da agressão vivida, o medo, para abalar a auto-estima, os processos de aprendizagem e a construção/afirmação da identidade. Um tempo, muitas vezes, mais do que suficiente para que o caso se transforme em manchete de jornais.


Na escola, quem nunca foi "zoado" ou "zoou" alguém? Risadinhas, piadinhas, fofocas, apelidos. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, testemunhamos essas brincadeiras de mau gosto, ou fomos autores ou vítimas. Contudo, essa rotina de xingamentos e ofensas, considerada normal por muitos pais, alunos e até educadores, está longe de ser inocente. O bullying é um comportamento ofensivo, aviltante, humilhante, que desmoraliza de maneira repetida, com ataques violentos, cruéis e maliciosos, sejam físicos, sejam psicológicos.


É um problema universal, uma epidemia invisível admitida como natural em alguns casos, desvalorizada em outros e, na maioria das vezes, ignorada.


Essa forma sutil de violência, que geralmente envolve colegas da mesma sala de aula, pode se constituir de maneira direta ou indireta.


O bullying direto é mais comum entre agressores meninos. As atitudes mais freqüentes identificadas nessa modalidade violenta são os xingamentos, tapas, empurrões, murros, chutes, apelidos ofensivos repetidos.


Carlos, um menino de 13 anos, não era considerado muito bom no futebol. Por ser obeso, não tinha velocidade nem fôlego para acompanhar as partidas e passou a ser motivo de chacota dos considerados "craques". Mesmo sob a supervisão de um professor, Carlos levava tapinhas na cabeça toda vez que perdia uma bola durante o jogo. Com o tempo, as agressões degradantes se tornaram freqüentes e aconteciam mesmo sem o suposto motivo. Decidido a não mais participar das partidas, começou a ser chamado de "menininha" e de gay pelos colegas. De "gordo sujo", apelido que ganhou porque suava muito quando corria, passou a ser conhecido na escola por "gordinha fedida", o que motivava risadas debochadas de meninos e meninas. Por várias vezes, teve sua cueca puxada por trás, apertando sua genitália. Essa desmoralização se estendeu até o dia em que o menino saiu da escola. Dizem que a família saiu da cidade. Talvez Carlos nunca mais tenha jogado futebol. Talvez tenha emagrecido. Mas, certamente, carrega consigo as marcas desse período perverso de sua vida.


O bullying indireto é a forma mais comum entre o sexo feminino e crianças menores. Caracteriza-se basicamente por ações que levam a vítima ao isolamento social. As estratégias utilizadas são difamações, boatos cruéis, intrigas e fofocas, rumores degradantes sobre a vítima e familiares, entre outros. Os meios de comunicação costumam ser eficazes na prática do bullying indireto, pois propagam, com rapidez e dimensões incalculáveis, comentários cruéis e maliciosos sobre pessoas públicas. A perversidade virtual é conhecida como cyberbullying e realiza-se por meio de mensagens de correio eletrônico, torpedos, blogs, fotoblogs, e sites de relacionamento, sempre anonimamente.


Bianca, aos 13 anos, foi perseguida por uma colega de classe. A novidade é que ela e a tal colega costumavam andar juntas a ponto de freqüentarem, algumas vezes, uma a casa da outra. As agressões começaram quando Bianca começou a namorar um garoto de quem, pelo que tudo indica, sua colega gostava. Foi o princípio do pesadelo. Primeiro foram os rumores maliciosos, espalhados pela menina, de que Bianca era uma "galinha". Risadinhas de canto e sussurros a mantiveram isolada da turma. Até então eram ofensas divulgadas somente na escola. Até que começaram os blogs e os fotoblogs, com montagens de cenas eróticas em que o rosto de Bianca aparecia adicionado a um corpo nu e por vezes fazendo sexo. Em questão de uma semana, garotos e garotas das escolas da região já conheciam a fama de Bianca. Desesperada, sua mãe recorreu à escola, que disse não ter como impedir algo que extrapolou os muros da instituição. A mãe, então, decidiu ir à casa da menina difamadora e conversar com seus pais. Chocados com o que viram e ouviram, acolheram toda a dor e a angústia da família e prometeram tomar uma atitude, mesmo diante da filha, que negava a autoria das agressões. Dias depois, a menina foi à casa de Bianca se desculpar. Quanto ao namoro, não deu certo. Já a suposta amizade, também foi rompida. Colocadas em classes distintas nos anos seguintes, ambas passaram a se ignorar. Separadas pelo tempo, nunca mais se viram ou se encontraram. E quanto ao trauma, só o tempo será capaz de dizer. Certamente não foi agradável para Bianca ser destruída em sua integridade moral. Mesmo que a amiga tenha pedido desculpas, isso não apaga o trauma. Pedidos de desculpas são importantes, mas às vezes tardios.


É indispensável que se estabeleça uma parceria entre a escola e a família. Sobretudo, é preciso que pais e educadores tenham um olhar atento, amoroso e sensível, que propicie atitudes efetivas no acolhimento das angústias e dos medos. É fundamental que os adultos não neguem os fatos, nem se coloquem à parte dos acontecimentos, arriscando diagnósticos precipitados ou naturalizando tais "brincadeiras de mau gosto".


O bullying nos faz conjeturar sobre nós mesmos, sobre os nossos pensamentos, sentimentos e atos. Reflexão que desperta para a responsabilidade que nos cabe pelos maus resultados colhidos e pelas tragédias registradas. Em muitas ocorrências, temos culpa, seja pela ação ou pela omissão, pela agressividade ou pela passividade, pelo barulho ou pelo silêncio, como protagonistas, vítimas ou testemunhas de atos violentos de qualquer natureza.


O mundo das crianças e dos jovens não é tão risonho quanto se pensa. A escola pode, sim, tornar-se um lugar constrangedor. Sob a roupagem de brincadeira de mau gosto, o fenômeno bullying invade silenciosamente os espaços escolares, furtando de crianças e jovens a possibilidade de sonhar. As experiências de dor, de angústia e de humilhação, vividas solitariamente, deixam cicatrizes e podem trazer graves conseqüências para os adultos que essas crianças serão.
Bom humor e brincadeiras são comuns na infância e na juventude e devem estar presentes em nossas vidas, mas a linha divisória entre atitudes dessa natureza e bullying por vezes é tênue. Um costume infeliz, ao ser ignorado e desvalorizado, torna-se um hábito desastroso. Obstar esse hábito exige conhecimento do fenômeno e do perfil dos personagens envolvidos. Mas a mudança principia com o profundo desejo e esforço ético revelados na ação de acolher sonhos, angústias e medos para proteger e transformar, amorosa e corajosamente, tantas vidas e reescrever um novo final para essa história.

O Bom Humor do Professor - Gabriel Chalita


O ser humano é um animal que ri. Pode parecer uma afirmativa leviana, mas o riso, a alegria, e suas manifestações, fazem diferença para que o homem seja quem é. Pesquisadores, antropólogos e escritores já analisaram essa característica, e concluíram que os homens melhoram quando riem. Henri Bergson, por exemplo, quando escreveu como tese de doutoramento "O riso - ensaio sobre a significação do cômico". No Brasil, recentemente, Flávio Moreira da Costa compilou os cem melhores contos de humor da literatura universal, pela Ediouro. Entre eles Anton Tchekhov, um mestre na arte de fazer rir.
O preâmbulo serve para apoiar uma reflexão sobre o papel do bom humor nas relações professor-aluno, e como o aprendizado pode ser facilitado com isso.
Alegria é algo muito próximo do prazer. E não há como discutir que o aprendizado só se dá se o processo for prazeroso.
A criança imita atitudes, no processo de construção de sua identidade. Desenvolve habilidades e competências com base no que percebe em casa, inicialmente, e na escola, quando chega o momento de freqüentar escola. Os bloqueios também começam a aparecer, muitas vezes por causa de atitudes quase sempre irrefletidas dos pais e dos educadores: apatia, indiferença, impaciência, intolerância, incompaixão. E talvez não haja nada que intimide mais uma criança do que uma carranca. Há algo mais opressor do que uma criança que não se sente à vontade para fazer perguntas ao professor porque tem medo da cara feia dele?
A atitude correta de pais e professores é a proteção. Não a proteção que engole, que apequena, que aprisiona. Mas a proteção que acolhe, que cuida, que prepara para o desenvolvimento da autonomia e do sonho. A criança tem de ser incentivada a sonhar e a realizar desde sempre. No mundo fantasioso da infância, pululam personagens e situações que não devem ser descartadas ou desprezadas. Todas com cara alegre, que cantam, que dançam, que vivem de bom humor. Quem está sempre de mau humor é o vilão, o bandido, aquele personagem que as crianças abominam e repelem. Pais contadores de histórias estimulam mais esse universo onírico, além de estarem mais presentes com os filhos. Isso é bom, desde que seja reservado espaço muito definido entre o que é bom e o que é ruim, entre o que é certo ou errado, justo ou injusto, mentiroso ou verdadeiro. Olhando para essas características, é fácil perceber que o que é ruim, errado, mentiroso e injusto, quase sempre tem cara feia, produto de tristeza e de rancor. Ao contrário, o que é certo, verdadeiro, bom e justo, tem aparência alegre.
Aí está o papel do bom humor. É amenizar o coração. E assim permitir que as pessoas tenham atitudes igualmente amenas. O sorriso no rosto reflete e até condiciona o estado de espírito. O professor que sorri certamente terá mais inclinação para fazer comentários positivos sobre as diferenças de cultura, ideologia, classe social, gênero etc.
A literatura está cheia de exemplos de bom humor. Mário Quintana é um dos mais divertidos. O escritor tem uma vocação que tem tudo a ver com o magistério. A literatura educa. E por isso vou citar uma escritora, também mestra na arte do bom humor. Lygia Fagundes Telles, no conto Eu era mudo e só, tem um trecho divertido do personagem Manuel, que se sente oprimido pelo casamento:
..."Ou a mulher fica aquele tipo de amigona e etc. e tal ou fica de fora. Se fica de fora, com a famosa sabedoria da serpente misturada à inocência da pomba, dentro de um tempo mínimo conseguirá indispor a gente de tal modo com os amigos que quando menos se espera estaremos distantes deles as vinte mil léguas submarinas. No outro caso, se ficar a tal que seria nosso amigo se fosse homem, acabará gostando tanto dos nossos amigos, mas tanto, que logo escolherá o melhor para se deitar. Quer dizer, ou vai nos trair ou chatear. Ou as duas coisas..."

Toda pessoa pode ser assertiva sem ser amarga. Toda pessoa é capaz de docilidade e de ternura. Basta desfazer as rugas da testa. Suavizar o rosto para suavizar a alma. Porque o que sentimos repercute na forma com que tratamos o outro. E, sem dúvida, a atitude do professor condiciona o resultado do aprendizado.
Há muitas informações que vão sendo oferecidas aos alunos e, aos poucos, descartadas. Isso faz parte do desenvolvimento cognitivo. Ninguém é capaz de memorizar tudo o que aprendeu desde sempre. Datas são esquecidas, nomes, lugares. Conteúdos específicos, se não utilizados, ficam armazenados em algum lugar, e não representam mais significado. Mas há algo que não sai jamais da memória: o gesto amigo, o acolhimento e o sorriso no rosto.

(Artigo publicado na Revista Profissão Mestre, edição de maio/2008)

NY estimula a leitura dentro das prisões

Sofia Ussami


O Projeto de Encorajamento à Leitura para Presidiários já doou mais de 50.000 livros para prisões de Nova York. Em atividade desde 2000, o PREP (sigla do nome do projeto em inglês) é uma organização sem fins lucrativos que busca propiciar oportunidades de educação aos presos por meio do contato com a literatura e conscientizar a sociedade da importância de programas educacionais nessas instalações.

O projeto funciona por meio de doações de livros ou dinheiro, vindas principalmente de donos de livrarias e estabelecimentos de ensino como escolas e universidades. Com a ajuda de voluntários, os livros recebidos são cadastrados e as bibliotecas dos presídios escolhem por quais obras se interessam. Só em 2006, 6.833 livros foram enviados às prisões nova-iorquinas.

O programa também promove concursos de redação entre os presos, para que estes possam desenvolver suas habilidades de escrita, com prêmios como livros especiais ao primeiro colocado. Os concursos têm um tema geral, baseado ou em datas comemorativas como o Dia dos Pais ou em assuntos que tenham ligação com a realidade em que os participantes vivem, por exemplo, o tema “O significado da liberdade”.

Ao longo do tempo, o PREP tem se ramificado em vários outros projetos, como o Viagem das Palavras. Neste, os presos podem gravar suas leituras de livros infantis e mandá-las para seus filhos por meio de uma fita. A iniciativa, além de estreitar os laços entre as crianças e seus pais enquanto estes se encontram na prisão, também desperta a curiosidade infantil pelos livros.No BrasilNo Brasil, existe um projeto similar ao PREP chamado Sala de Leitura. Concebido pelo Instituto Oldemburg de Desenvolvimento em parceria com o grupo editorial Record e o Ministério da Cultura, o programa também tem como objetivo estimular a leitura nas penitenciárias visando à inclusão social. Sempre é recebido com entusiasmo e atende inclusive às solicitações dos próprios detentos, que mandavam cartas pedindo doações de livros. Criado em 2003 e idealizado por Cristina Oldemburg, a iniciativa vai além disso, já que instala verdadeiras salas de leituras, tendo já ultrapassado o número de 400 núcleos em casas de detenção, escolas, hospitais e outras instituições públicas.

A maior parte dos recursos utilizados no projeto parte da iniciativa privada, através da Lei Rouanet. Por meio deles, nos próximos meses mais 20 salas serão inauguradas em diferentes Estados do país. A última inauguração foi no dia 27, quinta-feira, em Minas Gerais, no presídio de Ribeirão das Neves e numa casa de ressocialização de jovens em Belo Horizonte.

Cinema incentiva o amor pela cidade

Rafaela Pinheiro


Este foi um ano de muitas estréias de filmes franceses produzidos no próprio país. Na França sempre existiram festivais próprios e prêmios para os filmes nacionais, no entanto só recentemente esses longas começaram a chegar ao Brasil.
Um dos motivos das produções terem conseguido sair das fronteiras de seu país é o fato deles valorizarem a nação. Tendo os diretores e atores franceses escolhidos como cenário das gravações a França e o idioma francês. Fazem assim, uma verdadeira homenagem ao seu país.
Exemplos desses filmes são: “Paris, te amo!”, “Medos Privados em Lugares Públicos” e “Um lugar na Platéia”. O primeiro foi produzido por 18 diretores, cada um com 10 minutos para fazer um curta tendo como tema o amor. As histórias se passam nos bairros de Paris, mostrando diferentes tipos de amor, desde o amor pela cidade até o por um filho.
Já os outros dois foram produzidos apenas por um diretor. “Medos Privados em Lugares Públicos” conta a história de seis pessoas de diferentes localidades de Paris procurando por um amor. Enquanto que “Um lugar na Platéia” é sobre uma menina que vai para a capital para realizar seu sonho de morar lá, começa a trabalhar como garçonete e assiste a acontecimentos envolvendo celebridades ao seu redor. Além desses, muitos outros filmes franceses foram trazidos este ano para o Brasil, apesar de só serem exibidos em alguns cinemas, os longas são uma variação do contingente de filmes norte-americanos.
Essa valorização do país através de filmes nacionais pode ser observada também na cidade de São Paulo. Cada vez mais o cinema brasileiro produz com melhor qualidade. Quanto aos filmes que fazem homenagem a Sampa podemos citar: “Não Por Acaso” que mostra como a cidade de São Paulo pode influenciar muito na vida das pessoas. Imagens panorâmicas da cidade mostra suas ruas e cruzamentos, isso através da mente de um engenheiro de trânsito. Além deste, o Espaço Unibanco irá exibir neste mês o longa chamado “Bem-Vindo a São Paulo”. Unindo vários diretores internacionais com suas visões distintas da cidade e narrado por Caetano Veloso, o filme pretende desvendar peculiaridades da terceira maior cidade do mundo.

Teatro começa a modificar sociedade da Índia

Caio Dib

Um grupo de teatro tem conseguido integrar os diversos segmentos sociais da Índia. Por meio de músicas, jogos, viagens e, é lógico, da dramaturgia, o Teatro do Oprimido (TO) trabalha para curar traumas, estabelecer a paz e aumentar a responsabilidade social no país.
A população da Índia tem um grande número de refugiados, grupos étnicos descriminados, pessoas alcoólatras e mulheres portadoras do vírus da AIDS. A naco é uma das mais populosas do mundo, com mais de um bilhão de pessoas.

Em 1971, Augusto Boal saiu da direção do Teatro de Arena de São Paulo e criou o Teatro do Oprimido no Brasil, que visa à construção da cidadania por meio de exercícios, jogos e técnicas teatrais. O projeto também foi criado para pessoas que possuem dificuldades de integração social, econômica, política e cultural, tentando promover a restauração do diálogo e da convivência entre todos em mais de 70 países.

Boal acredita que a iniciativa ajuda as pessoas a viver em sociedade através do jogo teatral. No TO são discutidos e trabalhados temas como racismo, gravidez precoce, machismo, violência, entre outros, que estão presentes em nosso cotidiano. Dessa forma, quem sofre algum desses tipos de agressão consegue ter voz e, muitas vezes, mudar a realidade vivida.

Armindo Pinto, do TO de Santo André, diz que “muitas pessoas já conseguiram melhorar sua vida. A Jane, aos 16 anos, já dá aulas de dança e esse é seu sonho: ser professora de dança. Sonho que luta para concretizar. Fernando, 17 anos, voltou para a escola e acredita que, sendo professor, vai ensinar história, como aprendeu com o Teatro do Oprimido. Michele, 17 anos, aprendeu a se relacionar com sua mãe. Diego aprendeu que mulher é mais que fogão e tanque. Peterson aprendeu a combater o racismo”.

Segmentos do Teatro do OprimidoNo Brasil, o Teatro do Oprimido desenvolve vários projetos em sete Estados diferentes. O Teatro Imagem transforma questões, problemas e sentimentos em linguagens concretas por meio da linguagem corporal, buscando a compreensão dos fatos. Já o Teatro Invisível teatraliza uma cena do cotidiano em lugar em que ela realmente poderia acontecer, contando com a participação do público. Também existe o Teatro Legislativo, que, analisando questões interpessoais e individuais sobre temas do cotidiano, recolhe sugestões da platéia para elaboração de propostas de leis que visem à solução do problema apresentado na peça. Em razão desse projeto, já foram produzidas várias leis, garantindo a democratização através do teatro.

O Teatro do Oprimido também trabalha nas escolas e nas prisões, desenvolvendo projetos de atividade artísticas e visando abertura de espaços de diálogo entre os diferentes atores do sistema prisional e destes com a sociedade civil, além de vários outros projetos.

Basquete de alto nível ligado à responsabilidade social

Marcelo Szpigel


Após um longo período de recesso, os jogadores da NBA, a melhor liga de basquete do mundo, voltaram à rotina de jogos. Apesar disso, engana-se quem pensa que durante o período de “férias” os jogadores descansaram. Longe disso. Nos quatro meses entre o jogo final da temporada 2006/07 e o início da nova 2007/08, os jogadores e técnicos da principal liga de basquete do mundo trocaram os suntuosos ginásios de basquete americanos pelas quadras e comunidades carentes de diversas regiões do mundo. Valendo-se de seu prestigio e carisma, astros do basquetebol como Alonzo Mourning, Dwayne Wade e os brasileiros Nenê, Leandrinho e Anderson Varejão doaram livros e cestas de basquete, realizaram clínicas e, entre outras coisas, trouxeram alegria para milhares de crianças.Essas ações beneficentes fazem parte do NBA Cares, órgão beneficente criado pela liga em 2005 que pretende, até 2010, reunir um milhão de horas de trabalho comunitário ao redor do mundo, bem como contribuir com 100 milhões de dólares e a construção de 100 lugares onde as crianças possam aprender e jogar basquete.Dentre as diversas atividades realizadas pelo NBA Cares, destacam-se as de conscientização e prevenção ao vírus da AIDS em parceria com a Unicef e o Basketball Without Borders, acampamento de basquete que reúne jogadores entre 15 e 19 anos de idade. O Basketball Without Borders é realizado anualmente em cada continente e diferencia-se de outras clínicas de basquete por não se focar somente no basquete. Além de desenvolverem suas habilidades no esporte, os jovens atletas participam de palestras e seminários que discutem temas como educação, vida saudável, prevenção contra as drogas e cuidados contra a AIDS. O primeiro Basketball Without Borders ocorreu em julho de 2001, antes mesmo da criação do NBA Cares, quando os astros da NBA Tony Kukoc e Vlade Divac uniram-se com mais cinco jogadores da extinta Iugoslávia para promover um trabalho comunitário com 50 crianças de Bósnia Herzegovina, Croácia, Macedônia, Eslovênia e Sérvia e Montenegro. Desde então, o evento chegou aos quatro continentes e oito paises, sempre trazendo jogadores e técnicos da NBA para passar seus conhecimentos e experiências. A edição desse ano do Basketball Without Borders América aconteceu no Brasil, no mês de julho, com a participação de todos os brasileiros que jogam na NBA. Além de trabalharem como técnicos das equipes de jovens atletas do acampamento, Nenê e os outros astros da NBA contribuíram com a criação de um “Centro de Leitura e Ensino”, de uma clínica de basquete para deficientes físicos, e com uma visita ao projeto AMA, programa filantrópico e de responsabilidade social do Hospital Samaritano que atende jovens e crianças.

Arquitetura urbana inteligente

Maximilien Calligaris

A tolerância zero funcionou para os novaiorquinos, mas os franceses são demasiado protestadores para aceitar medidas desse tipo. A prova disso: os quebra-quebras de 2005.
Incapaz de resolver o problema da segurança nos subúrbios, O Ministério do Interior da França está adotando, aos poucos, uma nova estratégia para a prevenção substituir a repressão. A idéia essencial consiste em modificar o ambiente urbano desses bairros “problemáticos” de tal forma que ele mesmo seja um obstáculo à sua própria deterioração. Por exemplo, o chão será construído com materiais impossíveis de serem fragmentados, de modo que não forneça pedaços que possam ser jogados contra a polícia. Barreiras metálicas serão colocadas diante das vitrines de estabelecimentos que poderiam ser destruídas por um carro. Serão eliminados os toldos na entrada dos edifícios para evitar que jovens se reúnam embaixo deles.
Essas medidas estão sendo implementadas progressivamente depois que uma lei, oficializada no dia 5 de março 2007, tornou obrigatória a consideração da segurança pública na arquitetura urbana dos subúrbios.

O salário dos professores e a qualidade

Maximilien Calligaris


Um artigo publicado no “New York Times” de 7 de março está alimentando uma animada discussão na internet. Eis de que se trata. Uma “Charter School” (escola pública, geralmente experimental, que nasce com fundos públicos mas a partir de uma iniciativa privada) de Nova York deve abrir no bairro de Washington Heights em 2009 para tentar responder à pergunta: será que salários melhores, atraindo professores mais qualificados, podem oferecer aos alunos uma educação substancialmente melhor? Será que a chave para melhorar as escolas está num salário mais generoso para os professores?A escola oferecerá à seus professores um salário base de US$ 125 mil por ano (R$ 200 mil) – é quase o dobro do que ganham, em média, os professores das escolas públicas de Nova York e duas vezes e meio o que recebem, em média, os professores da rede pública no resto dos EUA. A hierarquia tradicional da escola será também invertida: o diretor ganhará US$ 90 mil por ano, quase US$ 3.000 por mês, menos do que seus professores (os quais terão também tarefas administrativas).O criador e primeiro diretor da escola, Zeke M. Vanderhoek, acredita que salários mais altos para os professores são cruciais para oferecer uma educação de melhor qualidade, muito mais importante do que a variedade de matérias facultativas ou a riqueza de material de alta tecnologia. A escola abrirá com apenas sete professores e 120 estudantes, entre 5º e 8º séries, mas a proposta é que chegue a uma capacidade plena de 28 professores e 480 alunos. Os jovens serão selecionados numa loteria orientada para privilegiar crianças com resultados escolares inferiores à média, de famílias hispânicas de baixa renda.Os professores serão selecionados por processo rigoroso: entrevistas telefônicas e pessoais, provas da performance e dos resultados de seus estudantes passados, e curriculum: por exemplo, um resultado de 90% mínimo no GRE (o exame de admissão à qualquer pós-graduação), GMAT (mesma coisa para a matemática) e outros testes similares. O processo de seleção terminará com três aulas públicas.O projeto é inovador e prometedor, é um desafio que ainda deve demostrar sua eficácia. Aumentar o salário do professor para atrair candidatos mais qualificados é um dilema que já está presente na maioria das escolas dos EUA. Discute-se bastante para saber como os professores deveriam ser selecionados e se laboratórios de informática ou um número reduzido de alunos por classe são mesmo menos importantes do que as qualificações do próprio professor.Para aumentar os salários, é necessário cortar outros gastos que normalmente são esperados numa “boa” escola. Mas, as autoridades da cidade e do Estado aprovaram o projeto depois que Vanderhoek apresentou um orçamento detalhado. Ele está reunindo fundos privados para alugar uma sede permanente no bairro e usará os fundos da cidade, do Estado e da Federação para cobrir os outros gastos.O projeto de Vanderhoek, se tiver sucesso, produzirá um impacto considerável sobre o sistema educativo dos EUA, e não só dos EUA. Ele poderia ser adotado, num efeito bola de neve, por outras escolas públicas, mudando radicalmente a idéia do que é necessário para oferecer uma educação de qualidade e de resultados.

Corrupção na educação afeta América Latina, segundo relatório da Unesco

Cibele Colaço Spina


A corrupção é um fenômeno generalizado nos sistemas educacionais do mundo todo e tem um custo alto, segundo um relatório da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Esse relatório, lançado por analistas do IIPE (Instituto Internacional de Planejamento Educacional), indica que a corrupção na educação prejudica seriamente a qualidade do ensino nos mais diversos países do mundo. O objetivo do estudo "não é denunciar, mas ser útil", disse Jacques Hallak, um dos autores do estudo, após indicar algumas conquistas obtidas na América Latina, região na qual há grandes problemas em matéria de corrupção e educação, admitiu o pesquisador. Muitos desses países latino-americanos já apresentam soluções ou pelo menos projetos que visam minimizar esses prejuízos. Na Colômbia, por exemplo, o Ministério da Educação de Bogotá "enxugou” a lista de professores e economizou 15% em despesas. Agora, há menos “falsos” professores, menos ausências e promoções injustificadas, menos aposentadorias manipuladas e o dinheiro economizado pôde ser usado para investir em educação.
Outro exemplo está na Argentina, onde o 'Pacto de Integridade' vem produzindo bons resultados. O Ministério da Educação, produtores manuais, uma comissão independente e a ONG Transparência Internacional se uniram para seguir um código de conduta na distribuição de três milhões de livros escolares ao ano. Esses dois países são citados no documento da IIPE como bons exemplos de medidas eficientes para solucionar a corrupção.
Exemplo brasileiro O Brasil também aparece no relatório como um dos exemplos a serem seguidos. A boa medida foi a criação do “Programa Dinheiro Direto na Escola”, que já atua no país há 12 anos, visando descentralizar e aumentar a transparência na gestão dos recursos financeiros escolares. O programa federal envia recursos diretamente para a escola, o que amplia a autonomia do diretor e a responsabilidade, já que é ele, junto com professores, pais e alunos, quem definem como o dinheiro será gasto. "O risco de desvio de verbas diminui muito, pois o repasse, além de ir diretamente para a escola, pode ser acompanhado pelos pais e pela comunidade", afirma Daniel Balaban, diretor de Ações Educacionais do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).
O programa vem apresentando bons resultados, pois o dinheiro recebido por cada escola é destinado às diferentes necessidades que cada uma apresenta. Assim, fica mais rápido e fácil solucionar seus problemas. Na escola Hilda Rabello Matta, em Belo Horizonte (MG), por exemplo, com o dinheiro recebido do governo foi possível construir para os alunos um espaço para jogar xadrez e uma horta. A conseqüência foi um melhor aproveitamento e desempenho escolar por parte dos alunos. Com isso, o relatório do IIPE mostra que cabe aos países atingidos pela corrupção tomar uma atitude para acabar com o desvio de verbas.

Novas mídias levam informações de cidadania para as ruas

As novas mídias eletrônicas ocupam o lugar que antes era reservado aos outdoors e anúncios de publicidade. Cada vez mais, torna-se visível o uso veículos de comunicação alternativos (televisão, rádio, internet) nos espaços públicos -principalmente nos meios de transporte. As notícias veiculadas apresentam os mais diferentes assuntos: saúde, meio ambiente, tempo, educação e tecnologia. Um exemplo deste novo costume, é a instalação de tvs LCD nos vagões de metrô, como a Tv Minuto. Há a preocupação diária de levar informações aos passageiros sobre o Brasil. A inspiração veio do projeto “Barcelona Posa’t guapa”, em Barcelona (na Espanha). Ele incentivou diretamente a lei “Cidade Limpa” em São Paulo, que entrou em vigor em janeiro de 2007. Ambos os projetos têm a finalidade de acabar com a poluição visual nas cidades, proibindo o uso de anúncios em fachadas de prédios, outdoors, luminosos, placas e frontlights e implantando uma fiscalização mais rígida para o uso da publicidade externa.De acordo com a Folha de S. Paulo, o processo começou na década de 90, com a retirada dos outdoors e a restauração de quase 5000 fachadas. As novas ações trouxeram muitas conseqüências para a legislação de Barcelona, que permitiu depois de alguns anos, o uso de anúncios publicitários em mobiliários urbanos: abrigos de ônibus e de táxi, lixeiras, caixas de correio, relógios de rua, protetores de árvores e cabines de segurança e informação. Atualmente, a cidade de São Paulo seguiu esse exemplo, permitindo as propagandas nesses espaços públicos.Segundo o site Terra, Paris, a capital francesa, também restringiu o uso da publicidade externa no ano passado. A prefeitura decidiu controlar os outdoors e micro-anúncios em portas e vitrines. A decisão foi de restringir a 30% o espaço publicitário. Está proibida também a presença de publicidade nas margens do rio Sena, em lugares públicos como o Campo de Marte (que abriga a Torre Eiffel) e em edifícios monumentais e históricos como a catedral de Notre Dame e o Museu do Louvre.Para a arquiteta e urbanista Regina Monteiro, a cidade de Barcelona tornou-se “uma referência em arquitetura”, além de ser uma potência turística. Já nas cidades do Brasil, as maiores repercussões estão no campo do conhecimento: as novas mídias promoveram o acesso de milhares de pessoas às informações de cidadania e respeito.

Giovanna Passos Miranda, aluna do 2º ano do ensino médio, do Colégio Bandeirantes

Apropriação cultural

Para tentar coibir a violência na Praça Roosevelt (Centro), onze grupos – entre teatro, cinema e literatura – decidiram ocupar as ex-salas da Escola Municipal de Ensino Infantil Patrícia Gouveia. Desde dezembro, o espaço serve como dormitório e ponto de uso de droga por pessoas da “cracolândia”. O trabalho cultural será feito, até que o prédio seja demolido e o projeto da nova Praça Roosevelt, concretizado. Alunos e professores foram transferidos ano passado para outro prédio, na rua Augusta. Para o dia 10 do próximo mês, está prevista uma festa de inauguração do espaço.

“Resolvemos ocupar o espaço para preservar a nossa segurança. Foi o meio que encontramos de a arte estar junto com o poder público e tentar eliminar a violência”, diz Ivan Cabral, ator integrante de Os Satyros. A depredação foi tanta que, no período de um mês, a praça estava sem luz – fios e lâmpadas já tinham sido furtados. Ameaças de outras depredações também são constantes – este era mais um motivo para a ocupação do espaço.

Ao todo, estão envolvidos no programa Os Satyros, Os Parlapatões, Cemitério de Automóveis, Dramáticos em Cena, Espaço Cenográfico, Teatro Oficina, Vertigem, Cim (Centro Informação Mulher) – de teatro –; Evaldo Morcazel, Kinoarte – de cinema – e Vacamarela – de literatura. Todos usarão o local para fazer ensaios, construir cenários, palestras etc.

O modelo de uso, no entanto, não está totalmente definido. Por ora, todos os grupos estão fazendo reuniões periódicas para decidir como ele será feito. A Prefeitura de São Paulo, segundo Cabral já está fazendo a limpeza das salas.

Ipiranga ganha biblioteca especializada em cinema

Ipiranga ganha biblioteca especializada em cinema
Keila Baraçal
Mais do que inúmeros programas culturais do Sesc Ipiranga e uma aula sobre a história do Brasil - contada através das histórias do museu, o bairro ganha agora um biblioteca especializada em cinema. Com inauguração prevista para acontecer no dia 14 de junho, a Biblioteca Roberto Santos, custou aos cofres municipais R$ 160 mil e, de início, já tem mais de 30 mil livros à disposição dos curiosos e estudiosos sobre o tema. Para a inauguração, será apresentado, entre outros, o longa metragem “As Cariocas”, dirigido por Roberto Santos.
De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, do total de exemplares que estão no acervo, pelo menos 400 são de assuntos relacionados ao cinema. Mas além da literatura especializada, há na biblioteca um cinema com 101 lugares, mais o projetor. Aos que queiram ver mais filmes, existe também a possibilidade de assisti-los em terminais instalados no local. Eles poderão ser escolhidos entre os mais de 500 títulos do cinema do nacional e do mundo.
Após a inauguração, a secretaria também planeja fazer shows inspirados em temas clássicos do cinema. A idéia é promover também cursos que abordem uma relação entre a literatura e o cinema. Para a temporada de inauguração estão previstas as exibições de “O Grande Momento”, “Um Anjo Mau” e “Contos Eróticos”, todos de Roberto Santos.
Esta já é quarta unidade de biblioteca temática na cidade. As outras são especializadas em Cultura Popular (Belmonte, Santo Amaro); Poesia (Alceu Amoroso Lima, Pinheiros); Música Popular (Cassiano Ricardo, Tatuapé); e Contos de Fada (Hans Christian Andersen, Tatuapé). A prefeitura ainda pretende inaugurar outros espaços ligados à Arquitetura e Urbanismo, Meio Ambiente e Ciências. A biblioteca Roberto Santos fica na Rua Cisplatina, 505. Informações: 2273-2390.

Escola de Inaplicação


"Concordo inteiramente com a coluna 'USP dá um péssimo exemplo', que critica a universidade e sua escola de 'inaplicação'. Cursei pedagogia na USP (1988-1995). Por 9 anos (tranquei matrícula e retornei várias vezes) estive ligado à Faculdade de Educação da USP e, sinceramente, não lembro de uma vez sequer em que as portas da Escola de Aplicação (que de aplicação não tem nada) tenham sido abertas para nós, alunos de graduação. Seja para fins de estágio, pesquisa, observação das aulas ou intercâmbio com os professores.

Nunca conheci um professor sequer da escola nesses nove anos. Lembro de pelo menos um debate acalorado em que a "inaplicação" da escola de "aplicação" foi denunciada por uma colega. Pouco depois, me foi relatado que a então diretora da escola de aplicação teve um ataque histérico ao defender-se da crítica em um debate subseqüente, ao qual eu já não estava presente.

A denúncia da falta de transparência naquela instituição sempre esteve na ponta da minha língua e do meu teclado e na língua e teclado de alguns poucos colegas, nas inúmeras vezes em que nos pronunciamos nos debates internos e escrevemos no então jornalzinho da faculdade, o Espaço Aberto. Não lembro de um professor sequer ter-se juntado a nós. Na ocasião em que eu e meus colegas do Centro Acadêmico Paulo Freire elaboramos um questionário para avaliação dos professores da FEUSP pelos alunos (o que teria sido o primeiro na história da instituição, que eu saiba), fomos chamados para uma conversa com uma das integrantes da comissão de graduação.

Em "off" (assim ela pediu que ficasse nossa conversa, e me arrependo de ter concordado com o silêncio), ela manifestou sua discordância quanto aos nossos métodos (avaliação independente, manutenção de sigilo no tocante à identidade dos alunos e promessa de divulgação dos resultados à comunidade). Quando mencionei a palavra "cidadania" como fundadora do projeto, tive enfim a oportunidade de testemunhar um ataque histérico de 3º grau. Aos berros, ela gritou que "cidadania" era fazer passeata na rua, defender os direitos históricos do professorado, etc...

Infelizmente, acho que as coisas devem continuar como estão ainda por um longo tempo. Nossos professores e gestores tecnocratas estão muito preocupados com seus próprios cargos e salários pra captar os sinais de lucidez que vêm de fora da instituição (como não poderia deixar de ser, penso). Os Dimensteins, Gustavos Ioshpes e Cláudios Moura Castros são admirados por mim e um pequeno e seleto grupo de educadores ao qual eu me orgulho de fazer parte, mas infelizmente ignorados por lá
Alexandre Matos

São Paulo está preparada para receber público

Amanhã será aberto o shopping Cidade Jardim.

O empreendimento, voltado para consumidores de alto poder aquisitivo, encontra na cidade de São Paulo estrutura adequada para atender esse público. Cada vez mais a capital se aperfeiçoa para lidar com clientes da classe AA, oferecendo serviços sofisticados e de qualidade.Um exemplo é a criação do curso de MBA Gestão de Luxo da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado).

Leia mais sobre o shopping e sobre o curso:

SP ganha 6 grifes internacionaisHermès e Furla são algumas das marcas que abrem a primeira loja no Shopping Cidade Jardim

Seis grifes internacionais de luxo inauguram suas primeiras lojas brasileiras em São Paulo, no Shopping Cidade Jardim - que depois dos atrasos nas obras, finalmente, abre amanhã para o público na Marginal do Pinheiros, zona sul. Duas delas são de bolsas, a italiana Furla e a francesa Longchamp. E, antes mesmo de elas oficialmente começarem a vender, já havia uma fila de espera para os produtos.

Uma das grifes que causam furor entre as paulistanas é a tradicional Longchamp, famosa principalmente por causa da Le Pliage, bolsa ícone da marca. Sucesso também entre as elegantes e práticas parisienses, ela é de náilon e vira uma microcarteira, quando dobrada. Quem viaja com freqüência já a viu, certamente, no Duty Free dos aeroportos -até então ela não era vendida no Brasil.

Este ano, a grife completa 60 anos e entre as ações que fazem parte das comemorações está a abertura da loja brasileira. "Com a de São Paulo consolidamos a presença da marca em 96 países. E será a mais importante flagship store da marca na América Latina, com cerca de 300 produtos à venda", diz Stephane Beraud, diretor internacional da grife.

Bolsas, malas, pastas, luvas, cintos e guarda-chuvas estão entre os artigos. A grande estrela da marca é, no entanto, a bolsa Legend (uma combinação de lona com couro em bege ou preto), a mesma que a top Kate Moss aparece nas propagandas da grife. Só para esse modelo há dez paulistanas na fila, ou seja, que reservaram o artigo com medo de ficar sem ele na hora que a loja abrir. A bolsa custa R$ 1.266.

A italiana Furla também abriu uma lista de espera de tantos telefonemas que recebeu de novos clientes. A marca não chega com grande estoque. E o objeto de desejo é a bolsa Afrodite, um clássico da marca. Custa R$ 2.570, de couro liso, no modelo maior. "Um dos grandes diferenciais da marca é oferecer três tamanhos (pequeno, médio e grande) de um mesmo modelo", diz Gabriella Muniz de Menezes, responsável pelo estilo da marca.

A inauguração da loja da Hermès é uma das mais aguardadas. Já houve várias tentativas do mercado nacional em trazer a loja da marca para o Brasil. Nem mesmo Eliana Tranchesi, proprietária da Daslu, conseguiu. Agora a Hermès abre sua primeira loja no Brasil, no Cidade Jardim, sem muito alarde. "A Hermès é a grife de maior destaque internacional no mundo do luxo", diz Silvio Passarelli, diretor do MBA gestão do Luxo, da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

Quem investiu pesado - R$ 2 milhões - foi a Sony, que montou um espaço com 700 metros quadrados, divididos em dois andares, projetado por Patrícia Anastassiadis, arquiteta que tem clientes como o BankBoston. A megaloja vai mostrar toda a linha eletroeletrônica da marca, de home theater a celulares. A grande atração, o PlayStation 3, ficará em exposição, mas não estará à venda, para a infelicidade dos marmanjos. Nos telões, serão transmitidos filmes da Sony Pictures, outro braço da empresa.

A Rolex e a Montblanc também abrem lojas conceituais, apresentando uma variedade de artigos que até então os brasileiros não viam por aqui.

O Shopping Cidade Jardim abre com 120 das 180 lojas projetadas. Terá cinco pisos, um deles todo ocupado pela academia Reebok e outro, por um spa. Uma das grandes novidades, em termos de planejamento de espaço, é que não terá praça de alimentação, comum em outros shoppings. Os restaurantes e cafés, como Nonno Ruggero (da rede Fasano) e Nespresso, respectivamente, ficam espalhados pelos andares. Detalhe: não haverá mesas no corredor. E, assim, os consumidores ficam livres das famigeradas bandejas de plástico.[Valéria França O Estado de S.Paulo]


Luxo em ascensão

João Batista Jr.

Criado em 2004 pela Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), o MBA Gestão de Luxo é um indicador de um mercado em ebulição. Pioneiro nas Américas, o curso veio para suprir uma lacuna. “O consumo de massa está em desuso. As pessoas querem produtos de qualidade e sofisticados”, acredita Silvio Passarelli, diretor do curso e da Faculdade de Artes Plásticas da FAAP. “O comércio como um todo não estava preparado para oferecer serviços que cativem os clientes da classe AAA.”

O MBA, que tem um ano de duração, já formou três turmas – com 25 alunos cada. “Temos executivos, jornalistas e até dentistas interessados em conquistar a clientela abonada.” Os alunos aprendem técnicas de gestão, áreas e marcas estratégicas para a classe muito rica e cultura do luxo. “A procura pelo curso não pára de crescer”, constata Silvio.

Esse crescimento é proporcional a outro dado em ascensão: o número de brasileiros milionários. De acordo com o levantamento exclusivo feito pela Escopo Geomarketing (agência especializada em informações de vendas) a pedido do Site GD – Jornalismo Comunitário, existem 34.006 pessoas na cidade e São Paulo com um rendimento mensal superior a R$ 50 mil reais.

São essas pessoas os principais responsáveis pela pujança no setor de luxo, que concentra 65% de seus serviços na capital paulistana. No Brasil, o mercado de luxo, em 2006, aumentou 32%, segundo a empresa de pesquisa GfK Indicator. Já o país teve um crescimento de 3,7% no mesmo período. De acordo com os dados divulgados neste ano pela revista Forbes, existem 19 bilionários brasileiros. Todos têm seus principais negócios concentrados no estado de São Paulo.

Parar de fumar é 'contagioso', revela pesquisa

Pessoas tendem a abandonar o vício em grupos, afirmam cientistas.Assim que alguém pára, chances de pessoas ao redor também pararem aumentam.Fumar pode não ser contagioso, mas parar de fumar com certeza é. Segundo uma pesquisa divulgada nesta semana, quando uma pessoa abandona o vício, aumentam as chances de todos ao seu redor fazerem o mesmo, desde esposos e esposas a amigos e colegas de trabalho.
Os resultados são surpreendentes. Quando um cônjuge pára de fumar, as chances do outro continuar fumando caem 67%. Se um amigo pára, a chance de outro continuar cai 36%. Se é um colega de trabalho, vai para 34%. E se é um irmão, 25%.
O trabalho foi publicado no "New England Journal of Medicine" e realizado por uma dupla de pesquisadores americanos: Nicholas Christakis, da Escola de Medicina de Harvard, e James Fowler, da Universidade da Califórnia em San Diego. Ao todo, os dois analisaram o histórico de 12.067 americanos ao longo de 32 anos. E concluíram: as pessoas param de fumar em grupos.
“Descobrimos que grupos inteiros de fumantes interligados em uma rede social, mesmo aqueles que estão a dois ou três graus de separação um do outro, param de fumar mais ou menos ao mesmo tempo”, explicou Christakis ao G1. “De uma maneira muito fundamental, esse comportamento lembra o tipo de decisão coletiva que vemos quando um grupo de pássaros parece decidir voar para a esquerda ou para a direita ao mesmo tempo.”
Uma das coisas que mais chamou a atenção da dupla foi a extensão que pode alcançar a decisão de apenas uma pessoa. “Não há dúvidas que somos influenciados pelas pessoas a que estamos diretamente ligados, como esposos, irmãos, colegas de trabalho e amigos. Mas também descobrimos que as pessoas parecem ser influenciadas, indiretamente, pelos amigos dos amigos, e até pelos amigos dos amigos dos amigos”, afirmou o cientista.
Para Christakis, esse tipo de comportamento pode aumentar a influência das leis que estão sendo propostas em muitos países para reduzir o número de fumantes. “As redes sociais podem aumentar o efeito de legislações desse tipo”, acredita ele. “Se a lei faz uma pessoa parar de fumar, ela pode influenciar outras, mesmo aquelas que não ligavam para a lei”, diz.
ImpopularidadeAssim como no Brasil, o número de fumantes nos Estados Unidos também tem diminuído nos últimos 30 anos. No estudo, os pesquisadores descobriram outro fator interessante: o tamanho das redes sociais de fumantes continuou o mesmo ao longo dessas décadas; o que mudou foi a quantidade dessas redes.
Na prática, eles acreditam, isso aconteceu porque o cigarro está perdendo cada vez mais o “glamour” que tinha no passado. Se fumar não atrapalhava em nada a vida nos anos 70, hoje cada vez mais os fumantes são jogados para escanteio – para áreas específicas para eles e muitas vezes para a rua mesmo.
“Ao contrário do que pensávamos na escola, fumar tem se mostrado uma estratégia incrivelmente ruim para ganhar popularidade”, disse Fowler.


Marília JustePortal G1

Um em cada 5 jovens não completou o ensino fundamental

Reportagem da Folha de S.Paulo mostra que um em cada cinco jovens entre 18 e 29 anos e que vivem em cidades abandonou a escola antes de completar o ensino fundamental.
Segundo trabalho feito pela Secretaria Geral da Presidência da República com base na Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, dos 34 milhões jovens urbanos do país, 7,4 milhões tiveram de um a sete anos de estudo --período insuficiente para concluir o ciclo-- e 813,2 mil são analfabetos.
No topo da lista de exclusão estão cinco Estados do Nordeste. O líder é Alagoas, com 46% dos jovens em uma dessas duas situações. Na outra ponta do ranking está São Paulo, com 15% de exclusão.
"Há 20 anos, quando muitos desses jovens estavam em idade escolar, o sistema de ensino apresentava uma cobertura menor e uma exclusão maior", declara o professor Fernando Tavares Jr., da Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. "Por outro lado [há 20 anos], a reprovação e a evasão eram bem maiores. Os dois fatores conjugados produziram uma exclusão educacional maior nessa geração", completa.
Um quadro geral sobre a péssima situação da educação nacional pôde ser visto em dezembro, com os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Entre 57 nações avaliadas, os alunos brasileiros obtiveram a 53ª posição em matemática, a 52ª em ciências e a 48ª em leitura.

Para educador, escola formal não serve para educar

UIRÁ MACHADO

Coordenador de Artigos e Eventos da Folha de S.Paulo


"A Escola formal não está só na forma. Está dentro da fôrma. O pior é quando está no formol. É um cadáver." É assim que o educador mineiro Tião Rocha, 59, vê o ensino convencional, de cujos métodos e conteúdos se afastou há mais de 20 anos para experimentar processos alternativos de educação.
À frente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento desde 1984, Rocha sempre persegue "maneiras diferentes e inovadoras" de educar, alfabetizar, gerar renda. Ele distingue educação de escolarização e busca um sonho: escolas que sejam tão boas que professores e alunos queiram freqüentá-las aos sábados, domingos e feriados. "Se ninguém fez, é possível", diz.
Folha - Toda a sua história como educador é feita do lado de fora das escolas convencionais. Qual é o seu problema com a escola formal?Tião Rocha - Se eu tivesse um analista, isso seria um prato cheio para ele. Comecei a ter problemas com a escola desde que entrei, aos sete anos.
Logo no primeiro dia de aula, no Grupo Escolar Sandoval de Azevedo, Belo Horizonte, a professora Maria Luiz Travassos nos levou para a sala de leitura, pegou um livro, "As Mais Belas Histórias", da dona Lúcia [Monteiro] Casasanta, e começou a ler: "Era uma vez um lugar muito distante, onde havia um rei e uma rainha (...)".
Eu levantei a mão e falei: "Professora, eu tenho uma tia que é rainha". Ela desconversou, pediu para eu ficar quieto. Ela prosseguiu a história. Depois que a interrompi duas ou três vezes, ela me mandou calar a boca e ir falar com a diretora, dona Ondina Aparecida Nobre.
Ela me deu um tranco, perguntou se eu queria ser expulso. A partir daí, eu sempre inventava coisa para matar a aula. Nunca tive uma escola boa. Nunca tive prazer na escola, mas sempre quis aprender.
Quando fui para a faculdade, estudei história e antropologia, fui resgatar a história da minha tia, que era rainha do congado.
Para pagar os estudos, eu precisava trabalhar. Fui dar aula e me dei conta de que, se eu achava aquilo chato, meus alunos também, porque eu era um reprodutor da mesma chatice.
Folha - E você conseguiu mudar?Rocha - Não. Criava jeitos diferentes de trabalhar com os alunos, inovava, mas, no fim, era uma experiência muito reformista. Ela começou a ser transformadora quando aconteceu o fato com o Álvaro, minha primeira grande perda [o garoto, excelente aluno, se suicidou].
Aí eu falei: "Opa! Não adianta querer que os meninos aprendam história se eu não consigo aprender a história da vida deles". Então comecei a deixar de lado não só a forma mas também o conteúdo.
Por exemplo, pedia aos alunos para pesquisarem em casa: sobre cantiga de ninar, expressões populares, jogos etc. Um pai chegou para mim e disse: "Vim te agradecer, porque eu tinha um problema de relacionamento com meu filho, mas agora ele apareceu querendo saber sobre as brincadeiras de quando eu era criança e começamos a conversar, a brincar".
Eu nem sabia que aquele negócio estava ajudando a aproximar pais e filhos. Aí eu fui me libertando dos conteúdos cheirando a mofo e comecei a ver que estava partindo para uma outra coisa. Esse processo foi evoluindo na reflexão sobre o que é deixar de ser professor e virar educador. O professor ensina, o educador aprende.
Folha - E então o sr. começou seus projetos fora da escola, debaixo do pé de manga. Mas o sr. acha que a escola formal serve para alguma coisa?Rocha - Ela serve para escolarizar. Ela dá um determinado tipo de informação e de conhecimento que atende um determinado tipo de demanda, um determinado tipo de modelo mental de uma sociedade que aceita, convive e não questiona.
Folha - Essa escola educa?Rocha - Não. Ela escolariza. Uma coisa é falar em educação, outra é falar em escolarização. A maioria das pessoas que estão cometendo grandes crimes são pessoas escolarizadas. Então, que escola é essa? Para que ela serviu? Não ajudou nada, mas escolarizou.
E essa escola continua sendo branca, cristã, elitista, excludente, seletiva, conformada. Ela seleciona conteúdos, seleciona pessoas, mas não educa.
Folha - O que significa a escola ser branca?Rocha - Por exemplo, eu nunca tive aula sobre os reis do Congo, mas tinha aula sobre todos os Bourbons, reis europeus.
Folha - E conformada?Rocha - A escola não permite inovação. Ela é reprodutora da mesmice. A escola formal não está só na forma. Ela está dentro da fôrma. O pior é quando ela está dentro do formol. É um cadáver. O conteúdo da escola está pronto e acabado. Os meninos que vão entrar na escola no ano que vem, independentemente de quem sejam, aprenderão as mesmas coisas, do mesmo jeito. Aprendem o que alguém determinou que tem que ser aprendido.
Folha - O que está errado com o conteúdo?Rocha - Recentemente, uma menina de nove anos, lá em Curvelo, virou para mim e disse: "Tião, vou ter prova e esqueci o que é hectômetro". Eu disse a ela que ninguém precisa saber o que é isso, que não se preocupasse, isso não cairia na prova. Perguntei se ela sabia o que era centímetro, metro, quilômetro. Ela sabia. "Pronto, tá bom demais, você vai viver a vida inteira mais 15 dias e não vai acontecer nada", disse para ela.
Passados uns dias: "Me ferrei. Caiu na prova e eu não sabia". Peraí: criança de nove anos tem que saber isso?
Isso é conhecimento morto. Mas se eu pergunto se eu posso ensinar outra coisa, não posso. O que posso é ensinar as mesmas coisas de um forma diferente. No conteúdo não pode mexer. O vestibular cobra. É um processo seletivo que vai determinando e excluindo, afunilando, dizendo que, para entrar aqui, precisa pensar desse jeito, nessa lógica. Do ponto de vista da escolarização, tá indo muito bem. Agora, se tá educando ou não, ninguém discute.
Quando uma criança é entrevistada e diz que é de determinado projeto porque quer ser alguém na vida, já sei que ela foi pessimamente educada. Um menino que aos 12 anos acha que não é ninguém na vida não tem mais auto-estima. Ele não é ele. Ela vai ser. É sempre um projeto adiado para o futuro.
Folha - Como deveria ser a educação?Rocha - Um projeto de vida, não de formação para o mercado. A lógica da vida não é ter um emprego. Será que é possível construir um processo de uma escola que incorpore valores dignos, que passe a perceber que a ciência precisa estar condicionada a esses valores, que a tecnologia precisa estar condicionada a esses valores, que elas não podem ser determinantes dos valores humanos?
Ter analfabetos não pode ser um problema econômico, é um problema ético. A experiência que a gente vem desenvolvendo no CPCD é saber se é possível fazer educação de qualidade. Claro que é. Só que você tem que botar uma pergunta que a gente sempre faz. É o MDI: "de quantas maneiras diferentes e inovadoras eu posso"... O resto você completa com uma ação: educar, alfabetizar, diminuir a violência, gerar mais renda.
Quando a gente começa a fazer isso, aparecem 70 sugestões para alfabetizar, por exemplo. Vamos tentando uma por uma. Funcionou? Não? Risca. E vamos para a próxima. Quando chega na última, já tem mais tantas outras. Você não esgota o seu potencial de soluções para as crianças aprenderem.
Folha - Até onde vale criar soluções?Rocha - Na educação, qual é a melhor pedagogia? É aquela que leva as pessoas a aprender. Na escolarização, a melhor pedagogia é aquela que dá mais sentido para quem a aplica.
O CPCD foi secretário da Educação de Araçuaí. Lá tinha um problema: os meninos demoravam duas horas no ônibus. O que a gente fez? Colocou educadores no ônibus. Qualquer secretaria de Educação pode fazer. É só sair da caixa.
Uma outra questão é o acesso aos livros. Há muitos anos, acompanhei a trajetória de dez crianças em Ouro Preto num período de seis, sete anos.
Como eu sei se um aluno é da primeira, da segunda, da terceira série? É pelo tamanho da pasta. No primeiro ano, traz até uma mala. Leva tudo. Depois, vai deixando. No ginásio [quinta a oitava série], eles não levam quase mais nada. No colegial, às vezes leva só uma canetinha.
Eu me perguntei se os livros perderam o encantamento ou se foi a escola que não soube mantê-los encantados. Juntei um monte de livros em baixo da árvore e mandava a meninada ir lendo. Em volta, deixava montinhos de sucata e escrevia uma placa: música, teatro, artes plásticas, literatura. Tudo que o menino lesse, tinha que ir numa direção e fazer música, teatrinho etc. É um jogo. Ler e transformar, do seu jeito.
Eles ficavam lá a tarde inteira. Vinha gente de longe. Agora, por que será que esses meninos nunca tinham entrado numa biblioteca da escola? Porque ele não tinha prazer em entrar na biblioteca. Quando ia ler um livro, tinha que dissecar a obra, classificar o texto, responder a dez perguntas sobre aquele negócio. Em baixo da árvore, ele não tinha que responder a pergunta nenhuma. Era prazer, e não dever. Os livros não perderam o encantamento, portanto.
Eu nunca li e detesto Machado de Assis. Por quê? Porque tive que fazer anatomia do livro. Achava um saco. Até hoje não consegui romper com isso.
Folha - Como enfrentar a falta de leitura?Rocha - Faz chover livro na cabeça dos meninos. De todo jeito. Bornal de livros, algibeira de leitura, folia do livro, banco de livros, livro no ponto de ônibus. É igual propaganda. Como você quer que o cara não tome Coca-Cola? Vamos botar esse apelo para o livro. A gente foi tirando os meninos do estado de UTI. Vale tudo. É ético? É. Então, vale. Se nunca foi feito, a gente faz. Se errar, não tem problema. Temos que aprender.
Folha - Como você mexe no conteúdo? Tem um conteúdo básico?Rocha - Claro. Tem que ter alguma coisa para começar. Precisa aprender os códigos de leitura, a a raciocinar e fazer cálculo, as quatro operações básicas. Mas não precisa saber o que é hectômetro.
Folha - Como diversificar? Ou por que diversificar?Rocha - Há uns 20 anos, eu trabalhava bem no sertão. Tinha um projeto do governo para combater a doença de chagas na região. Parecia muito bom, as casas de adobe seriam substituídas por casas de cimento com condições de pagamento bem favoráveis. Mas não houve adesão dos moradores.
O que os engenheiros não percebiam é que as casas pareciam um forno de tão quente. O pessoal do projeto dizia: "É uma questão de adaptação". Eu respondia: "Não começa, não. A casa de adobe resolve muito bem a questão térmica. Por que não fazem casa de qualidade com adobe naquele sertão?". Eles disseram que não sabiam fazer, que não aprendiam isso na faculdade de engenharia.
Fiquei imaginando: eles não foram formados para fazer casas dignas para a população. Querem fazer em São Paulo e no sertão uma casa do mesmo tipo. Que lógica é essa? É a lógica do modelão.
Hoje, entrou na moda fazer casa de adobe, é ecológico. Engraçado. Antes, as pessoas faziam casa assim. Aí vieram, cortaram a tradição, impuseram o modelão e, agora, querem voltar ao que se fazia antes, mas travestido de conversa nova.
Folha - Você é contra todo tipo de forma universalizante?Rocha - Como padrão único, claro.
Folha - Você é a favor de uma transformação constante?Rocha - Da diversidade permanente.
Folha - De uma pedagogia específica para cada pessoa?Rocha - Não. O que não pode é aprender uma única coisa, todo mundo igual. Mas não é "cada um faz o que quer". O que não pode é dar pesos desiguais, ou seja, negar ou excluir coisas em função de critérios que são absolutamente ideológicos.
É possível criar uma sociedade polivalente, diversificada? É, porque não foi feito ainda. Se ninguém fez, é possível. Isso é o que eu chamo de utopia. Utopia para mim não é um sonho impossível. É um não-feito-ainda, algo que nunca ninguém fez.
É possível aprender brincando? A escola tem que ser o serviço militar obrigatório aos sete anos ou pode ser prazerosa? Aí eu coloco um indicador: a escola ideal deve ser tão boa que professores e alunos desejem aulas aos sábados, domingos e feriados. Hoje, temos exatamente o contrário.
Os meninos estão no século 21 e a escola está Idade Média. A escola é a única instituição contemporânea que tem servos, tem serventes, pessoas que estão lá para nos servir. Nem em banco tem isso, lá são "auxiliares de serviços gerais".
Quando eu trabalhava na Universidade Federal de Outro Preto, por acaso eu virei pró-reitor. Acabei indo a uma reunião de pró-reitores com o secretário da Educação. Aquele discurso enfadonho estava me enchendo o saco, até que eu disse: "Nesse país, uma escola nunca teve crise de aprendizagem: a escola de samba.
Uma assessora do secretário disse que aquilo era inadmissível e perguntou se eu achava que a escola pública tinha que ser "aquela bagunça". Eu respondi: "Tô vendo que a sra. não entende nada de escola de samba. Na escola tem disciplinador, não tem? Pois na escola de samba tem diretor de harmonia". Entende? Uma coisa é cuidar da disciplina, outra coisa é cuidar da harmonia.
Folha - Como nasce uma nova forma de ensinar?Rocha - Ou da dificuldade ou da pergunta. Somos movidos por uma pergunta, que vira um desafio, que vira uma encrenca. É possível educar debaixo do pé de manga? É possível criar agentes comunitários de educação? Vamos ficar pensando ou vamos aprender fazendo? Vamos aprender fazendo.
A primeira coisa que a gente fez foram os "Não Objetivos Educacionais". Porque formular um objetivo é muito simples: basta colocar um verbo na forma infinitiva e depois encher de lingüiça. O nosso verbo é o "paulofreirar", que só se conjuga no presente do indicativo: eu "paulofreiro", tu "paulofreiras" e por aí vai. Não existe "paulofreiraria", "paulofreirarei". Ou faz agora ou sai da moita. Ação e reflexão, agora.
As respostas vão sendo testadas e viram novas metodologias, pedagogias. Assim surgiu a pedagogia da roda, por exemplo, como um jeito de combater a evasão dos meninos. Não podemos perder os alunos, precisamos mantê-los interessados.
Folha - Seus métodos são tão abertos a ponto de aceitar que uma criança queira aprender na escola formal? Ou você quer acabar com a escola?Rocha - Eu não quero acabar com a escola. Ela é muito mais importante do que parece. Ela tá longe de esgotar seu repertório, não usou nem 10% das possibilidades. Mas, para isso, ela precisa ter a ousadia de experimentar. É uma lástima dar às crianças só o que a escola formal oferece. É muito pouco.
As pessoas querem tirar os meninos da rua e levar para a escola --só se for para prender, porque para aprender não serve. É muito chato. Por que, em vez de tirar da rua, não mudamos a rua? Lugar de criança é na escola, na rua, em todos os espaços. Todos os espaços podem ser de aprendizado. Há experiências de cidades educativas muito legais.
Folha - Como é sua relação com os governos?Rocha - Eu não vejo muita diferença. Todos eles estão dentro da mesma caixa, só muda a cor. A escola que tem agora não é muito diferente da de oito anos ou 20 anos atrás. Vai só pintando a fachada. A lógica, o processo, a metodologia muda muito pouco, no geral. A gente não consegue estabelecer alianças com os governos porque incomoda pensar fora da caixa. Se incomoda, são refratários. Então a gente vem aprendendo a fazer política pública não-governamental.

Acadêmico inglês diz que ricos têm QI mais alto

A pequena proporção de estudantes de classe média baixa em universidades renomadas é o "resultado natural de uma diferença de QI entre classes sociais", afirma o acadêmico inglês Bruce Charlton na edição desta quinta-feira da revista especializada em educação "Times Higher Education".
"O governo britânico gastou tempo e esforço em afirmar que as universidades, especialmente Oxford e Cambridge, estariam excluindo pessoas de classes sociais mais baixas e privilegiando as de classes mais altas", disse o professor.
"No entanto, neste debate um fato vital foi esquecido: classes sociais mais altas têm uma média de QI maior do que as classes baixas", afirmou Charlton em artigo publicado na revista.
Segundo o acadêmico, professor de psiquiatria evolutiva na Universidade de Newcastle, na Inglaterra, a dominação das classes altas é "natural" e uma questão de "mérito".
"A distribuição desigual de classes observada em universidades renomadas, comparada com a população geral, dificilmente acontece devido a preconceito ou corrupção no processo de admissão. Ao contrário, o padrão observado é o resultado natural do mérito", escreveu Charlton no artigo.
Críticas
A afirmação provocou reações no setor educacional no país. Em um comunicado, a NUS (União Nacional dos Estudantes, na sigla em inglês) afirmou que os argumentos de Charlton são "equivocados, irresponsáveis e insultantes".
"Certamente a desigualdade social define a vida das pessoas antes mesmo de entrarem para a universidade, mas o setor de ensino superior não pode ser absolvido de sua responsabilidade de garantir que estudantes de todos os níveis sociais tenham a oportunidade de desenvolver seu potencial", disse Gemma Tumelty, presidente da NUS.
Outra crítica, também publicada pela revista, foi do ministro do Ensino Superior Bill Rammell. Segundo ele, os argumentos de Bruce Charlton dão um tom de que "as pessoas devem saber seu lugar".
"Apesar de muitos jovens pouco privilegiados conquistarem as qualificações para chegar ao ensino superior, eles ainda ficam atrás dos colegas mais privilegiados. Portanto, é vital que continuemos a preparar e apoiar os estudantes de maneira adequada para que cheguem à universidade", disse o ministro à revista.
Robert Sternberg, diretor de artes e ciências da Universidade de Tufts, admitiu a relação entre o QI e a questão social, mas não concorda com a posição de Charlton.
"Certamente há uma correlação entre o QI e a classe social. Pessoas de classes mais altas têm vantagens educacionais, sociais e econômicas e as transmitem aos seus filhos", disse ele.
Ao adotar o sistema que Charlton recomenda, afirmou, "garantimos que as classes mais altas continuarão a transmitir estas vantagens e iremos congelar aqueles de classes mais baixas".
"Desta forma, criaremos profecias que se cumprem sozinhas", disse Sternberg.

Um bom exemplo da USP

Na semana passada, relatei aqui um péssimo exemplo da USP --sua Escola de Aplicação, apesar de estar dentro de um dos principais centros de saber do mundo, dispondo, em seu entorno, de bibliotecas, de museus e laboratórios, está longe de ser um modelo de excelência. Agora, cito um bom exemplo daquela universidade, justamente por significar uma invenção para melhorar a educação pública.
Resultado da experimentação de diversas turmas da pós-graduação da Fundação Vanzolini, ligada à Poli, será apresentado nesta semana um software destinado a exibir para uma escola o que existe ao seu entorno e que poderia ser utilizado por pais, alunos e professores. É uma espécie de Google de bairro, voltado às possibilidade de aprendizado aproveitando-as as redes de saúde, de cultura, de geração de renda, de assistência social, de esportes e lazer.
Esse programa (detalhado no www.dimenstein.com.br), ainda em fase de testes, já chamou a atenção do Ministério da Educação e do Unicef, interessados em usá-lo, inicialmente, em regiões metropolitanas. Motivo: talvez sirva como um mecanismo de baixo custo para aproximar a escola da comunidade, além de aumentar o horário de aprendizado. Com um simples apertar de um botão, um professor poderia saber a quem encaminhar um aluno com problemas auditivos. Ou, para alunos mais agressivos, saberia oferecer programas de esporte ou apoio psicológico. Assim como teria a alista de atividades culturais e profissionalizantes gratuitas.
Uma das tarefas da universidade deveria ser ajudar a educação pública, com cursos de formação de professor, mecanismos de gestão, produção de currículos e até de jogos --a invenção daqueles alunos dá uma pista de que se pode fazer quando se juntam olhar inclusivo, articulação comunitária e pesquisa acadêmica.


Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.

USP dá um péssimo exemplo - Gilberto Dimenstein


Imagine uma universidade com sofisticados laboratórios e bibliotecas, nos quais se reúnem professores, pesquisadores e alunos da elite econômica de um país. Imagine também que, nesse lugar, além da excelência acadêmica, as pessoas sejam preocupadas com a inclusão social. Finalmente, imagine que, ali, seja considerado um dos principais centros de conhecimento da América Latina e até do mundo. Está pronto?
Agora, imagine que, nesse espaço, se coloque uma escola pública gerida por uma faculdade de Educação, destinada majoritariamente aos filhos e funcionários da universidade. Como você acha que seria essa escola pública? Lamento, mas você, caro leitor, errou.
Existe uma escola pública, com apenas 733 alunos, dentro da USP, a principal referência brasileira de ensino superior. Mas essa escola não está nem mesmo entre as 40 melhores do Estado de São Paulo, a julgar por um indicador que acaba de ser divulgado (o detalhamento está no http://www.dimenstein.com.br/).
O resultado mereceria várias teses de doutorado sobre a dificuldade de articulação de uma escola pública com a sua comunidade. Bastaria que um punhado de voluntários da USP assumisse a tutoria dos alunos com maior dificuldade ou que se usassem melhor os recursos disponíveis da universidade ( laboratórios, bibliotecas e museus), além dos serviços médicos, psicológicos e assistenciais, para que, em curto período, aquela escola seja uma das melhores do Brasil.
A USP prestaria um gigantesco serviço à nação se usasse sua inteligência para ensinar a fazer melhores escolas públicas --aliás, está nas suas origens a missão de ajudar a educação pública. Mas, ao contrário, dá um mau exemplo, que arranha sua imagem perante aos cidadãos e contribuintes.

A ignorância é só dos pernambucanos?

O governo de Pernambuco informa que 94% dos professores não foram aprovados num concurso para admissão na rede estadual de ensino --eles precisariam acertar no mínimo 60% das questões. O professor mal sabe, como mostrou essa prova, português.
Nem de longe é uma ignorância restrita aos pernambucanos. Vemos, nessa catástrofe, uma das principais razões por que a educação brasileira vai tão mal --é o despreparo do professor. O ensino público, por sua baixa atratividade (salários ruins, salas lotadas, infra-estrutura ruim, carga horário pesada) não tem como atrair as pessoas mais talentosas e esforçadas. Cria-se, assim, um círculo vicioso, propagando-se na qualidade dos cursos de formação de professor.
Esse concurso pernambucano mostrou que se houvesse para professor um teste semelhante ao feito pela OAB com os alunos de direito iriam ter de fechar escola por falta de quem dar aula.

Um oásis de emprego para jovens

Quem estiver interessado em modelos para geração de empregos para jovens --um dos grandes problemas nacionais-- deve prestar atenção na cidade de Indaiatuba, uma região industrial no interior de São Paulo, próxima de Campinas. Lá se criou uma espécie de oásis para emprego juvenil.
A prefeitura já tinha uma escola técnica em parceria com o governo federal, aproveitando as vocações econômicas locais, de onde 98% dos alunos saíam empregados; os 2% restantes só não pegavam emprego porque não queriam, oferta não falta.
A cidade foi mais longe, ao fazer uma parceria com o governo estadual, mais uma vez orientada pelas vocações da região. Fizeram uma lista das demandas das empresas e montaram-se cursos técnicos dentro das escolas estaduais, aproveitando espaço ocioso, com ensino a distância combinado com monitoria presencial --esse modelo é inusitado, já que mistura a formação técnica com o ensino regular. A experiência está mais detalhada em meu site www.dimenstein.com.br.
É mínina a chance de um jovem, uma vez formado, ficar sem emprego. Agora que se discute a expansão do ensino técnico, já que muitas empresas reclamam de falta de mão-de-obra qualificada. Além disso, o governo federal lançou uma polêmica ao pedir a remodelação do bilionário Sistema S (Sesi e Senac), a pequena cidade de Indaiatuba aparece com um interessante modelo de tecnologia social.
Poucos problemas são tão relevantes no país como melhorar a produtividade das empresas e incluir os jovens no mercado de trabalho.

Déficit de QI baiano é verdade

Criou-se uma imensa polêmica em torno do suposto "déficit de inteligência" do baiano para explicar por que os alunos da Faculdade de Medicina da UFBA foram tão mal nas provas nacionais. A polêmica foi tão grande que o autor da frase e então coordenador do curso, Antônio Dantas, renunciou ao cargo. Há mesmo um déficit de inteligência baiano. Mas muito longe daquele citado pelo professor.
O déficit de inteligência da Bahia é, na verdade, a avassalodora perda de cérebros que, por falta de alternativa, se mudam para outras cidades do Brasil e do exterior.
Há uma leva crescente de empresários, executivos, médicos, publicitários, engenheiros, designers ou produtores culturais. Uma série de ícones da publicidade paulistana é baiana. Nizan Guanaes é apenas a estrela mais reluzente de uma crescente constelação de migrantes.
É gente formada, em geral, nas boas escolas e, como é normal entre os imigrantes, são empreendedores e esforçados. Alguns montam seus próprios negócios e ajudam a inovar e gerar empregos. Vejo como muitos deles prosperam rapidamente, beneficiados pela criatividade baiana combinada com a disciplina paulistana.
Quando se estuda por que determinada empresa, cidade ou país prospera e se destaca sempre vamos encontrar os inovadores. Os inovadores gostam de estar com outros inovadores pela simples razão de que detestam a repetição e a mediocridade.
Quando estudamos porque uma empresa, cidade ou país entra em decadência, vamos encontrar também a fuga ou o sufocamento de seus inovadores esse é o custo do déficit de inteligência.
O que é um superávit extraordinário para São Paulo é um tenebroso déficit para quem exporta essa mão-de-obra.
O que me deixa perplexo é que, na Bahia, quase ninguém parece perplexo com esse déficit de inteligência, o que acaba estimulando um círculo vicioso do baixo capital humano. Isso vai a tal ponto que um professor, baiano, chega dizer que seus conterrâneos são burros o que, além do estúpido preconceito, simboliza uma autodepreciação.

A aventura dos jovens mestres

Uma experiência iniciada neste mês por um dos mais renomados colégios brasileiros (Santa Cruz), em São Paulo, tenta desenvolver nos estudantes habilidades profissionais e ao mesmo tempo fazer a diferença na sua cidade. É a experiência dos jovens mestres.
Na condição de auxiliares de professores, um grupo de 19 adolescentes do ensino médio daquele colégio começou a dar aulas numa escola pública, preparados por orientadores que ensinam a lidar com as mais diferentes questões: do funcionamento de uma rede oficial de ensino até didática, com todas as suas carências, passando pelo conhecimento de indicadores de aprendizado. Assim vão aprender a observar números para montarem sistemas de avaliação --daí que o nome do programa é "gestão comunitária".
Não é, portanto, uma intervenção pontual. Os estudantes são convidados a empreender um mergulho de um ano e, na adversidade, tocarem um projeto. Serão assim obrigados a se orientarem por metas, aprendendo a trabalhar em equipe.
É um choque de realidade, exigindo que se lide com escassez de recursos e abundância de problemas --ou seja, um teste para formação precoce de qualquer indivíduo que deseje ocupar, no futuro, alcançar cargos de decisão. Mas o que importa é saber até que ponto eles conseguem mudar a realidade, usando os talentos de gestão do conhecimento.
Já ouvi um político propor um projeto de lei (e todos riam porque acharam a proposta um delírio) para que todos os homens públicos eleitos fossem obrigados a dar uma única aula por ano numa escola pública. Argumentou que isso melhoraria rapidamente a educação. A idéia nem foi para o papel.
Os jovens mestres talvez, quem sabe, estejam ensinado a elite adulta a mudar o país mudando a educação, atuando dentro das escolas.

Isabella mora ao lado

A violência doméstica é pior do que se imagina --aliás, muito pior. É o que se conclui de uma investigação em andamento feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 800 famílias na periferia da cidade de São Paulo. É a primeira pesquisa de que se tem notícia feita de casa em casa, e não apenas com bases nos falhos registros oficiais.
Os pesquisadores estão constatando uma incidência de 20% de agressões graves contra as crianças, o que significa queimaduras, asfixia ou espancamento, resultando em fraturas e lesões que, muitas vezes, acabam no hospital, mas não punem o agressor, protegido por um manto de silencio familiar. Mas deixam seqüelas psicológicas profundas.
Essa pesquisa, que detalhei em meu site (www.dimenstein.com.br), mostra que o drama da menina Isabella, que parece tão distante, mora, na verdade, ao lado. A criança vira a depositária do estresse da pobreza combinada com o desequilíbrio emocional de adultos --e, claro, é vítima da ignorância. Os pesquisadores da Unifesp ouvem a desculpa das mães e pais de que estão apenas educando seus filhos.
Esse é mais um aspecto de uma mais das maiores fragilidades sociais brasileiras: a pouca atenção à primeira infância, especialmente nas camadas mais pobres.

A herança de Isabella

A morte da menina Isabella Nardoni deixou uma extraordinária herança. Ampliou o debate, como nunca, sobre um problema que ocorre no Brasil, mas sem grande repercussão: a violência doméstica contra as crianças. Não estou dizendo que ela foi assassinada pelos pais --apesar dos vários indícios comprometedores, não há, até este momento, provas para condená-los.
O que estou focando é o fato de que a morte trouxe luz a esse problema, até agora com pouca repercussão porque é mais comum entre famílias pobres e desestruturadas, vítimas de desequilíbrios emocionais extremos.
Desde o final da década de 1980, tenho acompanhado a violência contra a criança no Brasil. Há muito tempo estou convencido de que as crianças não vão morar na rua por causa da pobreza, mas pela dificuldade de enfrentar a agressão familiar, agravada pelo consumo do álcool e das drogas, em meio ao ambiente de impunidade --mais precisamente pelo silêncio materno.
Qualquer médico que já tenha feito plantão num pronto-socorro público sabe de histórias de crianças que chegam estraçalhadas, queimadas, pisoteadas, socadas e com marcas de abuso sexual --sem contar aqueles que se machucam gravemente por negligência paterna. Há estudos e mais estudos, recheados de estatísticas, dessa violência doméstica.
Isso tudo é sabido e denunciado por médicos, assistentes sociais, psicólogos e educadores. Mas nunca, nem remotamente, se prestou tanta atenção nesse tema como no caso Isabella - essa é triste e monumental herança que a menina deixou.
O problema é que esse tipo de caso tem que ocorrer na classe média para que a nação acorde.

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