"Os Educadores-sonhadores jamais desistem de suas sementes,mesmo que não germinem no tempo certo...Mesmo que pareçam frágeisl frente às intempéries...Mesmo que não sejam viçosas e que não exalem o perfume que se espera delas.O espírito de um meste nunca se deixa abater pelas dificuldades. Ao contrário, esses educadores entendem experiências difíceis com desafios a serem vencidos. Aos velhos e jovens professores,aos mestres de todos os tempos que foram agraciados pelos céus por essa missão tão digna e feliz.Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e se encantar com acolheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes"(Gabriel Chalita)

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sábado, 29 de dezembro de 2007

Ninguém merece ser sozinho ...




É no encontro com o outro que o eu se afirma e se constrói existencialmente


O seu coração sabe disso, porque certamente já experimentou o amargo sabor da solidão. É no encontro com o outro que o eu se afirma e se constrói existencialmente. O outro é o espelho onde o eu se solidifica, se preenche, se encontra e se fortalece para ser o que é. O processo contrário também é verdadeiro, pois nem sempre as pessoas se encontram a partir desta responsabilidade que deveria perpassar as relações humanas.
Você, em sua pouca idade, vive um dos momentos mais belos da vida. Você está experimentando o ponto alto dos relacionamentos humanos, porque a juventude nos possibilita ensaiar o futuro no exercício do presente. Já me explico. Tudo o que você vive hoje será muito importante e determinante para a sua forma de ser amanhã.
Neste momento da vida, você tem a possibilidade de estabelecer vínculos muito diversificados. Família, amigos, grupos de objetivos diversos, namorados e namoradas. Principalmente esses últimos, que não são poucos. Namora-se muito nos dias de hoje, porque as relações humanas estão cada vez mais instáveis e, por isso, menos duradouras. Parece que o amor eterno está em crise.
Que o seu amor não seja único!
Quando paramos para pensar um pouco, chegamos à conclusão de que o problema está justamente na forma como estabelecemos os nossos relacionamentos.
O grande problema é que geralmente investimos todas as nossas cartas naquela pessoa nova que chegou. Ela passa a centralizar a nossa vida, consumindo nosso tempo, nossos afetos, nossos pensamentos e nossas energias. Tudo passa a convergir para ela e, com isso, vamos reduzindo o nosso círculo de relações. O outro vai tomando tanto nossa atenção que, aos poucos, até mesmo a família vai sendo esquecida.
Porém, quando esquecemos de cultivar estes vínculos que até então faziam parte de nós, vamos criando lacunas afetivas dentro do nosso coração. É nesse momento que a confusão acontece, pois todas as necessidades começam a ser preenchidas pela pessoa enamorada.
Com o passar do tempo, ela começa a carregar um fardo muito pesado, pois passou a exercer a função de pai, mãe, irmão e amigo, quando na verdade ela é apenas um namorado, ou namorada.
Cada forma de amor no seu lugar!
Essa relação começará ser muito pesada para ambos. Será fortemente marcada pela dependência, pelas cobranças e pelo ciúme. Ambos passam a viver uma insegurança muito grande, pois nunca sabem ao certo o papel que exercem na vida um do outro. O amor deixa de ser amor e passa a ser sentimento de posse, como se o outro fosse uma propriedade adquirida, pronta para atender todos nossos desejos.
Quando o coração humano identifica esse sentimento de posse, ele tende a se esconder de si mesmo e, conseqüentemente, dos outros. Teme que alguém venha quebrar o encanto, mostrando que não existe nenhuma história de amor e que ambos viraram sapos. E, o pior, acorrentados.
Mas a mudança é sempre possível. Só é preciso que sejamos honestos. Se por acaso você se identificou com esta possessiva e conturbada forma de amar, vale à pena buscar uma ajuda. Comece a canalizar melhor os seus afetos. Não os direcione a uma única pessoa. Tenha amigos, cultive-os. Redescubra sua casa, seus pais, seus irmãos, mesmo que existam problemas entre vocês.
Deixe aflorar os afetos que ficaram adormecidos dentro de você. Não coloque sobre a pessoa que você diz amar a responsabilidade de ser o centro do seu mundo, nem se sinta deixado de lado o dia em que ela disser que não vai lhe ver, porque precisa ficar com a família. É que existem momentos que o colo da mãe é muito mais necessário do que o seu.
É duro de ouvir isso? Pois é, muito mais duro é não compreender!

O encanto nosso de cada dia


Ficar ao lado, mas sem possuir...

Ainda bem que o tempo passa! Já imaginou o desespero que tomaria conta de nós se tivéssemos que suportar uma segunda-feira eterna?
A beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Tudo o que é belo não pode ser aprisionado, porque aprisionar a beleza é uma forma de desintegrar a sua essência.
Dizem que havia uma menina que se maravilhava todas as manhãs com a presença de um pássaro encantado. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto que não durava mais que cinco minutos. A beleza era tão intensa que o canto a alimentava pelo resto do dia. Certa vez, ela resolveu armar uma armadilha para o pássaro encantado. Quando ele chegou, ela o capturou e o deixou preso na gaiola para que pudesse ouvir por mais tempo o seu canto.
O grande problema é que a gaiola o entristeceu, e triste, deixou de cantar.
Foi então que a menina descobriu que, o canto do pássaro só existia, porque ele era livre. O encanto estava justamente no fato de não o possuir. Livre, ele conseguia derramar na janela do quarto, a parcela de encanto que seria necessário, para que a menina pudesse suportar a vida. O encanto alivia a existência... Aprisionado, ela o possuia, mas não recebia dele o que ela considerava ser a sua maior riqueza: o canto!
Fico pensando que nem sempre sabemos recolher só encanto... Por vezes, insistimos em capturar o encantador, e então o matamos de tristeza.
Amar talvez seja isso: ficar ao lado, mas sem possuir. Viver também.
Precisamos descobrir, que há um encanto nosso de cada dia que só poderá ser descoberto, à medida em que nos empenharmos em não reter a vida.
Viver é exercício de desprendimento. É aventura de deixar que o tempo leve o que é dele, e que fique só o necessário para continuarmos as novas descobertas.
Há uma beleza escondida nas passagens... Vida antiga que se desdobra em novidades. Coisas velhas que se revestem de frescor. Basta que retiremos os obstáculos da passagem. Deixar a vida seguir. Não há tristeza que mereça ser eterna. Nem felicidade. Talvez seja por isso que o verbo dividir nos ajude tanto no momento em que precisamos entender o sentimento da tristeza e da alegria. Eles só são suportáveis à medida em que os dividimos...
E enquanto dividimos, eles passam, assim como tudo precisa passar.
Não se prenda ao acontecimento que agora parece ser definitivo. O tempo está passando... Uma redenção está sendo nutrida nessa hora...
Abra os olhos. Há encantos escondidos por toda parte. Presta atenção. São miúdos, mas constantes. Olhe para a janela de sua vida e perceba o pássaro encantado na sua história. Escute o que ele canta, mas não caia na tentação de querê-lo o tempo todo só pra você. Ele só é encantado porque você não o possui.
E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o pássaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela.

O banquete dos miseráveis


O seu nome já foi chamado...

Um banquete só tem significado para quem tem fome. Os saciados não desejam a proximidade do alimento. A fome é o elemento chave para que possamos desejar e apreciar o banquete.
Da mesma forma, o hospital não tem significado para quem está são. Somente os doentes carecem de hospitalização.
Essa comparação é simples, eu sei. Mas ela nos aproxima de uma verdade ímpar que Jesus fez questão de nos ensinar.
É desconcertante, mas a Eucaristia é o banquete dos miseráveis. Ela é o momento em que Deus se põe à mesa com os escórias da humanidade, com os últimos, os menos desejados.
Miseráveis, famintos, prostituídos, doentes, legítimos representantes da fome. Fome de pão, fome de beleza, fome de dignidade, fome de amor, fome de companhia.
Corações sufocados pela solidão do mundo, pelo descaso dos favorecidos e pela arrogência dos fortes.
A vida sem cuidados, mostrada nos olhos que já não sabem nutrir grandes esperanças. Olhares que nos fazem lembrar o olhar de Mateus, o olhar de Zaqueu, o olhar de Madalena... Olhares que não se sentem merecedores, e que se já se convenceram de que estão condenados.
E então, quando a vida os surpreende com o sorriso de Deus, olhando-os nos olhos, dizendo que está feliz porque eles reapareceram, e que para comemorar esta alegria um banquete lhes foi preparado.
Roupas limpas, banhos demorados, coisa de quem não faz do amor um discurso teórico. O sabonete, o cheiro bom a nos recordar antigas esperanças.
Alegrias nas taças, toalha branca estendida sobre a mesa, o colorido que tem sabor agradável. O melhor vinho, a melhor música, o melhor motivo a ser comemorado. A ceia está posta.
E então eu me ponho a pensar...
Recordo-me do quanto eu não sei viver a Eucaristia com esta mística. Penso no quanto sou seletivo ao pensar naqueles que Deus anda preferindo.
E então, hoje, nesta fração de tempo que passa, em que seus olhos se encontram com meu coração de padre, aqui, nesta tela fria de computador, eu fico desejando lhe convencer do quanto você é amado por Deus.
Ainda que seus dias sejam marcados pela rebeldia, pela derrota, pela queda, não desista! Religião só tem sentido se for para congregar, recordar a miséria como condição que nos torna preferidos...
É simples de entender. Pense comigo: uma mãe geralmente tende a cuidar de forma especial do filho que é mais frágil. Concorda comigo? Pois bem. O que é frágil será sempre velado, cuidado e amado.
Assim é você. Um miserável que tem entrada garantida na última ceia de Jesus.
Não venha com muitos pesos. Traga apenas uma pequena lembrança para o Mestre que o espera. Uma florzinha, um pedacinho de doce, não sei. Você é criativo e saberá escolher melhor.
Que o presente seja pobre, pois assim você descobrirá que o maior presente que Ele pode receber é o seu coração de volta.
Combinados?
Espero que sim.
O seu nome já foi chamado por Ele. Não o deixe esperando por muito tempo.
A casa é a mesma. O endereço você já sabe!

Quando a missa se torna uma obrigação...




Sua voz parecia me pedir socorro...

Religião é uma forma de religar. Religa partes, une pontas e diminui distâncias. O sacramento está sempre unido a um símbolo justamente por isso, pois ele é uma forma de concretizar a natureza da religião. Ele é a parte humana que se estende em direção a Deus com o intuito de tocá-lo e experimentá-lo. O símbolo é uma forma de prazer e o sacramento também, pois nele o sacrifício está redimensionado, já tem cores de ressurreição.
A pergunta
O menino chegou e perguntou-me: "Padre, eu sou obrigado ir à missa?". Olhei seus olhos e percebi uma honestidade na questão formulada. Junto da honestidade, havia uma ansiedade que lhe impedia o sorriso. No rosto, não havia alegria. Estava tomado de uma certeza de que a liturgia católica, para ele, estava longe de ser um acontecimento que lhe extraia gratuidade. Era uma obrigação a ser cumprida.
Sua voz parecia me pedir socorro, feito escravo com sua carta de alforria em mãos, a me pedir assinatura.
Naquele momento, fiquei sem palavras. Senti o coração apertado no peito e o desejo de nada responder. Reportei-me à Escritura Sagrada e senti-me como o próprio Abraão, diante do questionamento de Isaac: "Pai, onde está a vítima do sacrifício?" (Gn 22, 7). Pergunta que não tem resposta. Pergunta cheia de ansiedade, de silêncio, de motivos, honesta e plena de razões.
Olhei-o com muita firmeza e resolvi desafiá-lo: "É obrigado visitar alguém a quem se ama?". Ele disse: "Não, não é não, padre". Seguiu-se o silêncio. Calou-se ele, e eu também.
A pergunta que não cala
Algumas horas depois, retomei sua pergunta e fiquei pensando nela. Coloquei-me a pensar na religião que se apresenta ao coração humano como obrigação a se cumprir, feito mochila pesada que se leva nas costas.
Fico pensando no quanto a obrigação pode se opor ao prazer. E o quanto é contraditório fazer a religião ser o local da obrigação. Na expressão: "Deus é amor" (1Jo 4, 8), definição que João nos apresenta em sua carta, está a declaração da gratuidade de Deus.
Deus é o próprio ato de amar. Ele é o amor acontecendo, e a liturgia é a atualização dessa verdade na vida das pessoas. Ir à missa é tomar posse da parte que nos cabe.
Tudo o que ali se celebra e se realiza tem o único objetivo de nos lembrar que há um Deus que se importa conosco, que nos ama e quer nos ver mais de perto. O sacramento nos aproxima de Deus.
Tudo bem, essa é a Teologia, mas e a vida, corresponde à verdade teológica?
Nem sempre. Nosso rito, por vezes, cansa mais do que descansa. É lamentável que a declaração de amor de Deus por nós tenha se tornado uma obrigação.
Sou obrigado a ouvir alguém dizer que me ama?
Se muita gente pensa assim, é porque não temos conseguido "amorizar" a celebração. Racionalizamos o recado de Deus e o reduzimos a uma informação fria e calculada. Dizemos: "Deus nos ama!", da mesma forma como informamos: "A cantina estará funcionando depois da missa!".
A resposta que responde perguntando
Pudera eu ter uma solução! Ou quem sabe uma resposta que aliviasse os corações que se sentem obrigados a conhecer o amor de Deus, como o coração daquele menino.
Talvez, o teu coração também já tenha experimentado essa angústia e essa ansiedade. Gostaria de saber restituir o sabor lúdico das celebrações católicas. Torná-las acontecimentos reveladores, palavras para não serem esquecidas e imagens que despertassem o coração humano para o desejo de descansar ali todas as questões existenciais que o perturbam.
O problema não está no conteúdo do que celebramos, mas, sim, na forma.
A natureza simbólica da vida é o lugar do encanto. Por isso, a celebração é cheia de símbolos. Mas o símbolo, se explicado, deixa de ser símbolo, perde a graça e deixa de comunicar. Talvez seja isso o que tem acontecido conosco. Na ansiedade de sermos eficientes, tornamos a celebração um local de comunicar recados. Falamos, falamos, de maneira ansiosa, cansada e repetitiva. Temos que falar algo, pois também o padre tem a sua obrigação!
E assim vamos celebrando, obrigando o coração e os sentidos a uma espécie de ritual que nos alivia a consciência, mas não nos alivia a existência.
A missa é muito mais do que uma obrigação: é um encontro. Encontro de partes que se amam e se complementam. É só abrir os olhos e perceber!
Creio que possa ser diferente.

Abalando as estruturas de nossa consciência - Pe.Fábio de Melo


É muito fácil a gente cair na religião do mito

Nós somos capazes de seguir uma regra a partir do momento em que a conhecemos. O Deus que nós anunciamos não é uma ameaça.
Religião que só nos mostra a cruz é uma religião infértil, porque eu não sou filho do calvário, eu sou filho do Ressuscitado - e quem eu anuncio sempre é o Ressuscitado.
Se cada um de nós, hoje, tivesse a oportunidade de contar o que passamos, de escrever a nossa história, tudo o que tivemos de sofrimento e sangue, não teria editora suficiente para tantos livros. Todos nós passamos pelo “calvário”, mas você não pode ficar parado aí. Nesse calvário, você tem duas opções: ou esquece o peso da cruz ou olha que tem um Cirineu do seu lado. Nós queremos a ressurreição, mas não queremos o calvário.
É muito fácil a gente cair na religião do mito – Jesus já nos alertava o tempo todo para o culto dos ídolos – e a idolatria é um dos principais problemas religiosos no mundo. Esse é um risco que todos nós corremos, quando a nossa admiração por alguém, ou por uma pessoa se torna essencial, colocada acima, em termos de importância do que aquele que a pessoa anuncia.
Temos que viver uma religião que seja capaz de mexer com as estruturas da nossa consciência, a ponto de nos fazer acordar para tudo aquilo que não sabíamos que existia dentro de nós.
Já estávamos inconscientes e acostumados com o nosso jeito ciumento de amar, jeito ciumento de possuir as pessoas, achando que isso era amor. Eu já era desonesto nas pequenas coisas e já estava acostumado. Até que um dia uma palavra profética varou as estruturas da minha vida e me incomodou. Uma palavra profética tem o poder de fazer algo, de acordar os surdos e aqueles que estão dormindo e que já não escutam mais nada, num sono letárgico, ou até mesmo num cumprimento de rituais inférteis que já não servem de nada para a nossa salvação.
A religião que Jesus quer de nós é esta: que você fixe os olhos céu, que você busque o céu. É disso que Jesus fala: "Não venha me dizer o que você fazia antes, não me importa o que você fazia. O que faz diferença para mim é o quanto a minha Palavra conseguiu transformar o seu coração a ponto de transformá-lo numa pessoa melhor". A ponto de você olhar para trás e dizer: "Antes eu era assim, e pela força da Eucaristia, do Evangelho, do terço, eu mudei".
Você percebe que a sua vida não é mais a mesma, porque você mudou o seu jeito de pensar, modificou o seu jeito de ser.
Você acha que nós vamos ser santos sem sacrifício?
A dor sinaliza que alguma coisa precisa ser cuidada. Eu sei das minhas lutas, mas estou satisfeito, porque eu não me prendo àquilo que eu não posso, mas sim Àquele que me anima. A semente passa por todo um processo de crescimento, mas ela sabe que se não deixar de ser o que é, não atingirá seu objetivo.
Se eu não tivesse sofrido do jeito que eu sofri, se eu não tivesse amado do jeito que eu amei, eu não teria nada para contar a vocês. Não tem jeito de amar sem sofrer.
Não sinta vergonha de nada que viveu, porque depois que passou por aquele momento, você sabe o que você sofreu para chegar onde chegou. A dor é o preparo. A sua dor não pode ser em vão.

É preciso reconhecer-se frágil - Pe. Fábio de Melo




Quantas vezes perdemos a oportunidade de aprender?

O bom treinador é aquele que sabe salientar a qualidade do atleta, mas, sobretudo, sabe encaminhá-lo para a superação dos seus limites. Assim, não é possível falar de crescimento humano se antes não falarmos de reconhecimento dos nossos limites. O primeiro passo é reconhecer onde nós precisamos melhorar.
Lamentavelmente, as pessoas não estão preparadas para nos educar para a coragem. Muitas vezes, os incentivos que nos são dados estão mais voltados para esquecermos as nossas fragilidades. Não estamos preparados para encarar a fragilidade. Parece que a nossa educação está sempre voltada para nos revestir de uma coragem que nos faz esquecer o limite. E quando mostramos as nossas fragilidades, há uma série de repreensões.
Nós, humanos, temos uma dificuldade imensa de lidar com a fragilidade do outro – ainda que seja nosso filho. Nós gostamos é de todo mundo feliz. Você já reparou que nós não deixamos a criança chorar? Já reparou que quando o recém-nascido chora, nós fazemos de tudo para calar a boca dele?
Estamos em processo de feitura. Não estou pronto. Eu não sou perfeito, estou por ser feito. Estou sendo feito aos poucos. E no processo de ser feito aos poucos, eu vou descobrindo onde é que dói o espinho da minha limitação.
Quanto mais uma pessoa está aperfeiçoada no processo de ser gente, tanto maior é a facilidade dela de conhecer limites. Ter coragem é descobrir onde está a nossa fragilidade e ali trabalhar com maior empenho. E aí é que entra a grande contribuição do Cristianismo, numa proposta antropológica. Deus não quer que você seja um anjinho na terra, mas que você permita que Ele lhe mostre onde estão os seus limites para que você lute.
Cara feia, arrogância... Isso é complexo de inferioridade e por trás disso se oculta a insegurança. A pior ignorância é aquela que finge que sabe! Temos medo de mostrar que não aprendemos. Quantas vezes na nossa vida, por medo, perdemos a oportunidade de aprender. Às vezes, por medo de expor a nossa fragilidade, perdemos o direito de chorar. E muitas vezes, choramos e não sabemos o porquê estamos chorando.
O ensinamento de Jesus é sempre o avesso do avesso. Quer ser santo? Assuma que você é fraco. Muitas vezes, neste processo de nos conhecer, nós sangramos. E nós precisamos sangrar. Quantas vezes você não se viu traduzido em uma canção de alguém, que teve a coragem de "sangrar" e não teve medo de mostrar as próprias fragilidades.
Para quantas pessoas você teve coragem de "sangrar" e de se mostrar? As pessoas que o enxergam por dentro são raras.
Nós somos todos iguais. Nós padres somos todos iguais. Não adianta fingirmos que somos fortes ou ficar fingindo que não sentimos nada e que não temos medo. É muito melhor nós admitirmos que temos medo.
Conversão é isso. É você educar o seu filho para ele poder lhe contar onde estão os "espinhos" na vida dele. O espinho não é o defeito, mas é a seta que nos mostra onde temos que trabalhar para ser melhores. O que vai sobrar de nós é a nossa vontade de amar. É preciso reconhecer-se frágil.

Maturidade - Pe.Fábio de Melo





A maturidade faz parte de um processo. Em um processo não podemos queimar etapas. Ele é lento, chato e demorado. Uma criança passa por um momento de amadurecimento a partir do momento que começa a brincar. A maturidade acontece, quando tomamos posse do que nós somos, para aí então poder nos dividir com os outros. Isso faz parte do processo de maturidade. Não nascemos amando, pelo contrário, queremos ter a posse dos outros. Essa é a forma de amar da criança, pois ela não consegue pensar de maneira diferente. Ela não consegue entender que o outro não é ela. Quantas pessoas já adultas pensam assim, trata-se da incapacidade de amar, falta de maturidade. Todos os encontros de Jesus levam a implantação do Reino de Deus. Mas só pode implantar esse reino quem é adulto, que já entende que só se começa a amar a partir do momento, que eu não quero mudar quem eu amo.
Geralmente quando tememos alguém ruim ao nosso lado, é porque nos reconhecemos naquela pessoa. Jesus não tinha o que temer porque era puramente bom, por isso contagiava os que estavam ao seu lado. Na maturidade de Jesus você encontra a capacidade imensa de amar o outro como ele é. Amar significa: amar o outro como ele é. Por isso quando falamos em amar os outros, podemos perceber o quanto deixamos de ser crianças. Devemos nos questionar a todo o momento quanto a nossa maturidade. A santidade começa na autenticidade. Por isso Jesus nos pede para ser como as crianças, que são verdadeiras e simples. É nisso que devemos manter da nossa infância e não a forma de possuir as coisas para si. Você tem condições para perceber a sua maturidade. É só observar se você é obediente mesmo quando não há pessoas ao seu redor. Você não precisa que ninguém te observe, pois você já viu aquilo como um valor. Pessoas imaturas sofrem dobrado. Pessoas imaturas querem modificar os fatos, pessoas maduras deixam que os fatos os modifiquem. A maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Um imaturo ganha um limão e o chupa fazendo careta. O maduro faz uma limonada com o limão que ganhou.Muitas vezes os nossos relacionamentos de amizade são uns fracassos porque somos imaturos. Amigos não são o que imaginamos, mas o que eles são e com todos os defeitos. Amizade é processo de maturidade que nos leva ao verdadeiro encontro com as pessoas que estão ao nosso lado. Elas têm todos os defeitos, mas fazem parte da nossa vida e não a trocamos por nada deste mundo. Isso porque temos alma de cristão e aquele que tem alma de cristão não tem medo dos defeitos dos outros, porque sabe que aqueles defeitos não serão espelhos para nós, mas seremos um instrumento de Deus para ele superar esse defeito.Padre só pode ser padre a partir do momento que é apaixonado pelos calvários da humanidade. Se você não consegue lidar com os limites dos outros, é porque você não consegue lidar com os seus limites. A rejeição é um processo de ver-se. Toda vez que eu quero buscar no outro o que me falta, eu o torno um objeto. Eu posso até admirar no outro o que eu não tenho em mim, mas eu não tenho o direito de fazer do outro uma representação daquilo que me falta. Isso não é amor, isso é coisa de criança. O anonimato é um perigo para nós. É sempre bom que estejamos com pessoas que saibam quem somos nós e que decisões nós tomamos na vida. É sempre bom estarmos em um lugar que nos proteja. Amar alguém é viver o exercício constante, de não querer fazer do outro o que a gente gostaria que ele fosse. A experiência de amar e ser amado é acima de tudo a experiência do respeito. Como está a nossa capacidade de amar? Uma coisa é amar por necessidade e outra é amar por valor. Amar por necessidade é querer sempre que o outro seja o que você quer. Amar por valor é amar o outro como ele é, quando ele não tem mais nada a oferecer, quando ele é um inútil e por isso você o ama tanto. Na hora que forem embora as suas utilidade, você vai saber o quanto é amado. Tudo vai ser perdido, só espero que você não se perca. Enquanto você não se perder de si mesmo você será amado, pois o que você é significa muito mais do que você faz.O convite da vida cristã é esse: que você possa ser mais do que você faz! ”

Assim lembramos o sagrado Nascimento - Pe. Silvio Andrei



O presépio é talvez a mais antiga forma de caracterização do Natal. Sabe-se que foi São Francisco de Assis, na cidade italiana de Greccio, em 1223, o primeiro a usar a manjedoura com figuras esculpidas formando um presépio, tal qual o conhecemos hoje. A idéia surgiu enquanto lia, numa de suas longas noites, um trecho de São Lucas que lembrava o nascimento de Cristo. Resolveu então monta-lo em tamanho natural, numa gruta de sua cidade. O que restou desse presépio encontra-se atualmente na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.Presépio ( em hebraico ebus e urvã em latim praesepium) significa em hebraico "a manjedoura dos animais", mas também o termo é usado frequentemente para indicar o próprio estábulo.Segundo o evangelista Lucas, Jesus ao nascer foi reclinado em um presépio que provavelmente seria urna manjedoura das que existiam nas grutas naturais da Palestina, utilizadas para recolher animais. Já São Jerônimo diz que o presépio de Jesus era feito de barro, aproveitando-se uma saliência da rocha e adaptando-a para tal finalidade.Esta é, sem dúvida, a versão mais aceita sobre o presépio. Outras hipóteses admitidas posteriormente na antiga Roma não merecem boa acolhida.A partir de São Francisco de Assis os presépios tornaram-se frequentes, apresentando Jesus deitado na manjedoura, Maria e José, os pastores e também os Magos. Naturalmente, deve-se levar em conta a inspiração e a imaginação dos artistas da época na diversidade das cenas do nascimento do Salvador. O certo é que a reconstituição da cena do nascimento de Jesus tem origem remota, pois São Francisco de Assis montou um presépio com figuras esculpidas na noite de 24 para 25 de dezembro de 1223, na aldeia de Greccio. Era uma manjedoura cheia de feno e colocados perto dela um boi e um jumento. Acima da manjedoura foi improvisado um altar e nesse cenário ocorreu a missa da meia-noite, na qual o próprio santo com a vestimenta de diácono cantou solenemente o Evangelho juntamente com o povo simples e pronunciou comovente sermão sobre o nascimento do Menino Jesus. Um dos presentes teve a visão de que na manjedoura dormia uma criança e de que São Francisco de Assis aproximou-se dela, acordando-a. Estava, pois, reconstituída ao vivo a histórica cena, então denominada presépio. Assim, de maneira inédita, todos os presentes - religiosos, convidados e as pessoas humildes do povoado festejaram com sentimento e alegria a festa de Natal do Salvador.Esta cena foi narrada em 1229 por Tommaso da Celano, biógrafo de São Francisco de Assis, na Vita Prima.Passados mais de 30 anos a cena foi também descrita por São Boaventura. Posteriormente, outros autores, ampliando a descrição, mencionam que eram esculpidas as figuras do Menino, da Virgem e de São José. O certo é que a descrição de Tommaso da Celano deu origem a inúmeras representações esculpidas na Itália e no sul da França, passando depois para outras regiões.Sabe-se que em Portugal existia um presépio do século XVII no Convento do Salvador, em Lisboa. No século XVIII, vindo de Nápoles, difundiu-se por toda a Espanha o hábito de manter o presépio nas salas dos lares com figuras de barro ou madeira.Esse hábito fez renascer a tradição de São Francisco de Assis, dando origem a numerosos presépios, desde os mais modestos até aos suntuosos com centenas de figuras.De Portugal, o hábito veio ao Brasil. E, hoje, nas igrejas e nos lares cristãos de todo o mundo são montados presépios recordando o nascimento do Menino Jesus, com lindas imagens, de madeira, barro ou plástico, em tamanhos diversos.Assim, o presépio, decorridos tantos séculos, continua sendo uma das mais preciosas e comoventes tradições da festa do Natal, reunindo pela fé cristã homens, mulheres e crianças!Cada um dos elementos que circunda este nascimento tão simples de quase 2.000 anos atrás, tem um papel muito importante. A Sagrada Família, os reis magos, os pastores, as ovelhas e a vaca, são símbolos desta noite de alegria, e também da humildade e dos futuros sofrimentos de Cristo.Os anjos aparecem aos pastores de Belém contando que Jesus havia nascido e louvado a Deus. Estas figuras são, geralmente, representadas com instrumentos musicais, na suposição de que estejam cantando preces em louvor a Jesus.Os pastores foram os primeiros adoradores de Cristo. Ligados a eles, estão os carneiros, mansas criaturas muitas vezes usadas para simbolizar a humildade de Cristo como o Divino Pastor.Nessa mesma noite sagrada, uma estrela andou pelo céu e se localizou em cima da manjedoura, transformando-se no símbolo do divino guia. Dirigiu por intermédio quem quis acreditar no nascimento de seu filho. O boi e vaca sempre presentes no presépio, ilustram a humildade de todas as criaturas do mundo, reconhecendo e homenageando Cristo como filho de Deus.Três reis também foram saudar o recém-nascido. Os homens sábios, os Magos visitaram a manjedoura depois do nascimento; levados pelo divino guia. Sua visita foi profetizada na Bíblia no Salmo 71 e em Isaías 60,como reis levando presentes de incenso, ouro e mirra para o Salvador.Maria e o menino Jesus simbolizam a encarnação desde o início da arte cristã. A maçã, presente em muitos trabalhos pictóricos e de escultura, simboliza a fraqueza do homem e a redenção vinda de Cristo. As auréolas circundando as cabeças de Maria e Jesus indicam glória e santidade e a radiante luz com a qual Deus presenteou a Terra.Tudo aconteceu num lugar simples e pobre. A grande importância do acontecimento impôs-se por si mesma, sem festa ou alarde. E é isto que tentamos conservar até hoje. Não importa que alguns costumes tenham sofrido alterações. O que conta é relembrar sempre que este símbolo do Natal, o presépio, é a comemoração da maior festa cristã: a do nascimento do seu Salvador.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Amanhã pode ser muito tarde

Amanhã pode ser muito tarde Para você dizer que ama, Para você dizer que perdoa, Para você dizer que desculpa, Para você dizer que quertentar de novo... Amanhã pode ser muito tarde Para você pedir perdão, Para você dizer: Desculpe-me, o erro foi meu!... O seu amor, amanhã, pode já ser inútil; O seu perdão, amanhã, pode já não ser preciso; A sua volta, amanhã, pode já nãoser esperada; A sua carta ou e mail, amanhã, pode já não ser lida; O seu carinho, amanhã, pode já não ser mais necessário; O seu abraço, amanhã, pode já não encontrar outros braços... Porque amanhã pode ser muito...muito tarde! !!!!Não deixe para amanhã ...O seu sorriso, O seu abraço, O seu carinho, O seu trabalho, O seu sonho, A sua ajuda

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Elegância


Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.É uma elegância desobrigada.É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.Nas pessoas que escutam. E quando falam, não ficam a julgar sentindo-se o "dono da verdade".É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas.Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Em pessoas que sabem que os mais velhos, muitas vezes, são rabujentos e mesmo assim o tratam com a deferência que merecem.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.Oferecer flores é sempre elegante.É elegante não ficar espaçoso demais.É elegante você fazer algo por alguém e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer...É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.É elegante retribuir carinho e solidariedade.É elegante o silêncio, diante de uma rejeição....Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.É elegante a gentileza; atitudes gentis falam mais que mil imagens...Abrir a porta para alguém? É muito elegante.Dar o lugar para alguém sentar? É muito elegante.Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma...Oferecer ajuda? Muito elegante.Olhar nos olhos ao conversar? Essencialmente elegante.Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo.A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que "com amigo não tem que ter estas frescuras". Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão desfrutá-la.Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Faça a sua parte


Em um certo lugar do Oriente, um Rei resolveu criar um lago diferente para as pessoas do seu povoado. Ele quis criar um lago de leite! Então pediu para que cada um de seus súditos levasse apenas um copo de leite; com a cooperação de todos, o lago seria preenchido.O Rei muito entusiasmado esperou até a manhã seguinte para ver o seu lago de leite.Mas, qual não foi a sua surpresa, no outro dia pela manhã, quando viu o lago cheio de água e não de leite.Consultou o seu conselheiro que o informou, que as pessoas do povoado tiveram todas o mesmo pensamento:No meio de tantos copos de leite, se só o meu for de água, ninguém vai notar... Pense nisto!É por isso que estamos nessa situação, onde todos por comodismo esperam pelos outros!Não espere pelo leite dos outros para encher o lago da vida, participe com sua parte!

Ser feliz ou ter razão


Oito da noite numa avenida movimentada.O casal já esta atrasado para jantar na casa de alguns amigos.O endereço é novo, assim como o caminho, que ela conferiu no mapa antes de sair.Ele dirige o carro.Ela o orienta e pede para que vire na próxima rua à esquerda.Ele tem certeza de que é à direita.Discutem. Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal humorados, ela deixa que ele decida.Ele vira a direita e percebe que estava errado.Ainda com dificuldade, ele admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno.Ela sorri e diz que não há problema algum em chegar alguns minutos mais tarde.Mas ele ainda quer saber: Se você tinha tanta certeza de que eu estava tomando o caminho errado, deveria insistir um pouco mais.E ela diz: Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz.Estávamos a beira de uma briga, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite.Essa pequena historia foi contada por uma empresária durante uma palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho.Ela usou a cena para ilustrar quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independente de tê-la ou não.Desde que ouvi esta história, tenho me perguntado com mais freqüência:Quero ser feliz ou ter razão?Pense nisso e seja feliz.

" Tapeçaria de Deus "





Deus tece as tramas da vida
em um desenho perfeito, precioso.
E mesmo que seu plano para nós às vezes nos pareça misterioso,
se nós confiarmos Nele mesmo
além da nossa compreensão,
Nossas vidas poderão ser
verdadeiras obras de arte.

Criadas por sua própria mão...
Plenas de amor e harmonia,
com família, lar e amigos,
frutos da pura inspiração,
fortalecidos pela fé,
tramadas com alguns desafios
que nos farão aprender e crescer.
cruzadas por pontos brilhantes
de alegria e paz,
e a perfeição dessa trama
é a prova que Deus nos ama.

Tenha fé na bondade do Senhor
e pense primeiro Nele.
Em tudo o que você fizer.
Reze para ter compreensão
do plano Dele para você.

Agradeça por todas as bênçãos e viva
cada dia com alegria,
lembrando de que você
é uma parte especial
da tapeçaria de Deus.
Amem...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

A pequena vendedora de fósforos - Hans Christian Andersen



Fazia um frio atroz. Caía a neve. A noite descia - a última noite do ano.
No frio, no escuro, uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.
Quando saiu de casa decerto trazia chinelos; mas de que adiantavam? Eram uns chinelos enormes, e viviam saindo dos pés. Por isso mesmo a menininha os perdera quando escorregara na estrada, quando uma carruagem conduzida por um cocheiro malcriado passou apressada, sacolejando.
E então a menininha caminhava de pés nus, já roxos de frio.
Dentro de um velho avental carregava algumas caixas de fósforos, e um feixinho deles na mão. Não conseguira vender um fósforo sequer naquele dia, por isso estava sem um níquel.

Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos , que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.
Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.
Sim: nisso ela pensava!

Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.
Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão. O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

Suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha...
Que luz maravilhosa!
Na realidade parecia à menininha que ela estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.

Riscou um segundo.
Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado.
Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve,
e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar.
O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito! Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria. Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.

"Alguém está morrendo", pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.

Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.

- Vovó! - exclamou a criança.
- Oh! leva-me contigo!
Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!
Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!

E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera grande e tão bela. Tornou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.

Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.
O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver.
A criança lá ficou, inteiriçada, um feixe inteiro de fósforos queimados.

- Queria aquecer-se - diziam os passantes.

E ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó, no dia do Ano­ Novo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

NÃO DÊ OUVIDOS AS INTRIGAS


NÃO dê ouvidos as intrigas e colunias;só a árvore que produz frutos é que se vê apedrejada, para deixa-los cair.


A árvore esteril, ninguém dá importância.


A calúnia, muitas vezes, ,é uma honra para quem a recebe.


NÃO pare seu serviço por causa da calúnia.


Se pára de fazer o que estava fazendo, dá razão ao caluniador.


SIGA à frente, e todos acabarão calando-se e no fim ainda baterão palmas ao seu trabalho...

Naquela noite...




Naquela noite, um pobre saiu a implorar auxílio batendo de porta em porta:

— Socorrei-me, boas almas! Em casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume para aquecer minha esposa e o pequenino. Dai-me um pouco de brasas, pelo amor de Deus!Mas era alta noite. Toda a gente estava a dormir, e ninguém lhe respondia. De repente, o homem avistou, ao longe, um clarão e, caminhando para lá, encontrou uma fogueira acesa e, em volta dela, um rebanho de ovelhas e carneiros brancos a dormir, e um velho pastor a guardá-los, também mergulhado no sono.Quando o homem que andava em busca de brasas chegou ao pé dos carneiros e das ovelhas, o soar dos seus passos acordou três canzarrões que dormiam aos pés do pastor. As largas bocas dos rafeiros abriram-se para ladrar; mas nenhum som saiu delas. O homem notou que o pelo dos ferozes animais se eriçava e que as suas presas aguçadas luziam ao clarão da fogueira. E todos os três se atiraram assanhados contra ele. Um abocanhou-lhe uma perna, outro um braço e o terceiro segurou-lhe a garganta; contudo, as mandíbulas dos três animais ficaram inertes e o homem não foi mordido.Quis ele então aproximar-se mais do fogo, para de lá tirar algumas brasas. Mas os carneiros eram tantos e estavam deitados tão juntinhos que não havia como passar por entre eles. Foi-lhe forçoso pisá-los para avançar; e nenhum deles acordou, nem se mexeu.Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor que dormitava em sua enxerga de peles ergueu-se impetuoso e irado. Era criatura ruim e mal-encarada. Ao ver ali o desconhecido, agarrou, lesto, uma enorme pedra e arremessou-a contra ele. O perigoso seixo partiu direto ao homem; quando, porém, ia atingi-lo, desviou-se e foi espatifar-se no chão.

Então o homem, aproximando-se do pastor, falou-lhe assim:

— Compadeça-se de mim, amigo, e deixa-me levar algumas brasas. Em minha casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume, para agasalhar minha esposa e o pequenino.O primeiro impulso do pastor foi o de uma recusa cruel; pensou, porém, nos cães que não tinham ladrado nem mordido, nos cordeiros que não tinham fugido, na pedra que não tinha querido ferir o homem. E sentiu um terror vago, indefinível.

— Leva o que quiseres.— respondeu secamente.

Ora, o lume estava agora quase a apagar-se. Nem ramos a arder, nem achas grandes. Só havia um monte de brasas miúdas, e o homem não tinha pá, nem qualquer coisa em que pudesse levá-las. Ao ver isto, o pastor repetiu:

— Podes apanhar as brasas que quiseres!Mas, no íntimo, regozijava-se maldoso, certo de que o homem não podia levar um braseiro nas mãos nuas. Mas o outro se abaixou, afastou as cinzas, tomou de uma porção de carvões incandescentes e pô-los numa aba da esfarrapada túnica. E as brasas não lhe queimaram as mãos, não lhe queimaram a véstia e ficaram a brilhar nelas como rútilos rubis. E o desconhecido partiu.O pastor, vendo tudo isto, disse para si:— Mas, que noite é esta, em que os cães não mordem, os carneiros não se espantam, a pedra não fere e as brasas não queimam?Foi ao encalço do homem e interrogou-o:

— Que noite é esta, em que até as próprias coisas se mostram inclinadas ao amor e à piedade?

O homem respondeu:

— É a noite de Natal, meu amigo. Jesus, Salvador, acaba de nascer...

sábado, 15 de dezembro de 2007


NÃO dê ouvidos as intrigas e colunias; só a árvore que produz frutos é que se vê apedrejada, para deixa-los cair.

A árvore esteril, ninguém dá importância.

A calúnia, muitas vezes, ,é uma honra para quem a recebe.

NÃO pare seu serviço por causa da calúnia.

Se pára de fazer o que estava fazendo, dá razão ao caluniador.

SIGA à frente, e todos acabarão calando-se e no fim ainda baterão palmas ao seu trabalho...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Caráter e Consciência


Sabemos que o caráter é o eixo da educação. Por isso, os pais têm o grave dever de formar nos filhos um caráter reto e uma vida honesta.Sêneca dizia que de "nada vale ensinar aos jovens o que é alinha reta, se não lhes ensinarmos o que é a retidão". Spalding repetia que "as civilizações perecem não por falta de cultura, mas por falta de moral".O caráter dá esplendor e respeito aos velhos. Em todos os tempos, os homens de caráter firme foram as colunas da sociedade. Portanto, cultivando o caráter dos nossos filhos, estaremos cultivando o solo sobre o qual crescerá a verdadeira civilização. A grandeza de uma nação ou de uma família não depende da extensão de suas terras, mas do caráter dos seus filhos.No Talmud dos israelitas, há uma passagem que diz: "Onde melhor se conhece o caráter de um homem é nos assuntos de dinheiro, à mesa, e nos momentos de ira".Tudo pode se perder nesta vida: a fama, a popularidade, a riqueza, menos o caráter. Uma mostra de caráter vil é o emprego de servilismo com os grandes e arrogância com os pequenos.Um caráter elevado se forma no cumprimento fiel e esmerado dos deveres. A sabedoria ensina que os pensamentos geram os atos, os atos geram os hábitos, os hábitos moldam o caráter, o caráter firma o destino do homem.A Bíblia afirma que: "o filho mal educado é a vergonha do seu pai" (Eclo 22,3).Os pais não podem deixar de corrigir os filhos, de imediato, diante de uma ato de mau comportamento: roubo, mentira, desrespeito com os outros, desordens, perturbações, etc.Acima de tudo há que ensinar o filho a obedecer à voz sagrada da consciência, que é a própria voz de Deus. Nela, Ele escreveu a lei natural para guiar o homem. Santo Agostinho diz que o homem escreveu os dez mandamentos nas pedras, porque o homem já não conseguia lê-los em seu coração.O maior crime é fazer calar, brutalmente, a voz da consciência. E isto se dá quando não a obedecemos. Violar a voz da consciência é o mesmo que se violar; pois ali é o lugar sacrossanto onde estamos a sós e com Deus.Ghandi dizia que o único tirano a que ele se submetia, sem restrições, era àquela suave voz que falava dentro dele.Notamos, cada dia mais, que todas as formas de censura, mesmo as boas e necessárias, estão caindo; em breve, a única censura será a consciência de cada um. E se esta não existir? E se os filhos não aprenderem a respeitá-la? É por isso que voltamos ao paganismo pré-cristão.São Paulo, ao falar aos romanos da necessidade de submissão às autoridades, por exemplo, dizia que "é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas por dever de consciência" (Rom 13,5).Eis aqui algo importante a ser ensinado aos filhos: fazer o bem, não por medo do castigo, mas por "dever de consciência".A voz da consciência nos ensina permanentemente: "faça o bem, evite o mal"; mas ela precisa ser bem formada; e isto só pode ser feito pela Lei de Deus e seus ensinamentos.Precisamos ensinar a nosso filhos que a consciência não pode ser vendida por nada: nem pelo poder, nem pelos prazeres deste mundo e, muito menos, por causa do dinheiro. Aprendamos, mais uma vez, com a sabedoria de Deus: "Vale mais o pouco com o temor do Senhor do que um grande tesouro com a inquietação"."Mais vale um prato de legumes com amizade que um boi cevado com ódio" (Prov 15,16-17).

Um grito sem som


O show já estava terminando. Minuto final. Eu já me despedia do povo. A placa de finalização já tinha sido levantada e a transmissão ao vivo precisava ser encerrada. Era o final do ‘Hosana Brasil’, o maior evento da Canção Nova.
E foi então que, no meio da multidão, alguém se destacou. Alguém que chorava dominado pela emoção, da qual eu desconhecia a razão. Prestei atenção. Uma fração de segundos. E foi então que pude ouvir de seus lábios: “Padre Fábio, eu te amo. Você salvou minha vida!”
Não, não havia som naquelas palavras. O que havia era o grito da vida – sussurrado no meio do grito da multidão.
Um rapaz desconhecido, rosto perdido na multiplicidade de rostos. Plural que ficou singular, pela força de olhares que se encontraram, por acaso.
Eu pensei que já sabia a razão do meu ‘Hosana’, mas não. A minha razão seria revelada somente ao final de tudo. Eu, que pensei que já levara comigo as causas de meus louvores, de repente, ali, fui surpreendido pela voz de Deus nos lábios silenciosos daquele moço.
Logo em seguida, eu soube a razão da emoção. O rapaz era alcoólatra e entrou em processo de recuperação depois que uma palavra pronunciada por mim o atingiu, há algum tempo atrás. Ele veio de Foz do Iguaçú (PR) e trouxe sua família para celebrarem juntos esta graça. Olhei seus filhos e esposa e agradeci a Deus pelo bem acontecido.
Salvar a vida de alguém é um jeito bonito que a gente tem de salvar a vida da gente. Eu não posso negar que fiquei mais padre a partir daquela frase.
Eu tomei posse, mais uma vez, da responsabilidade de ser portador da palavra redentora, da palavra que quebra as cadeias das escravidões.
O ‘Hosana’ não terminou em mim. Ele continua ressoando. E enquanto eu viver quero a graça de me recordar daquele acontecimento. A multidão, o refrão entoado por todos, e, no meio de tudo isso, a frase sem som, o discurso do silêncio, a vida e seu poder de dizer muito em um curto espaço de tempo.
Ao longo deste ano, eu escutei muitas coisas que me fizeram crescer, mas nada pode ser comparado ao que Deus fez em mim por meio daquele rapaz. Eu tenho vivido muitas graças de poder ouvir frases semelhantes; mas aquele momento foi por Deus preparardo; eu sei disso.
Peço licença a todos vocês para mandar a ele o meu recado simples, mas cheio de gratidão e carinho…
Meu amigo, você que passou pela minha vida, de forma tão rápida e sincera…Você, de quem eu não sei o nome…Obrigado por ter gritado no meu ouvido a razão do meu ‘Hosana’.



Padre Fábio de Melo

Poema de Natal




Vinicius de Moraes



Para isso fomos feitos:


Para lembrar e ser lembrados


Para chorar e fazer chorar


Para enterrar os nossos mortos


-Por isso temos braços longos para os adeuses


Mãos para colher o que foi dado


Dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecer


Uma estrela a se apagar na treva


Um caminho entre dois túmulos


-Por isso precisamos velar


Falar baixo, pisar leve, ver


A noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:Uma canção sobre um berço


Um verso, talvez de amor


Uma prece por quem se vai


-Mas que essa hora não esqueça


E por ela os nossos coraçõesSe deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:Para a esperança no milagre


Para a participação da poesiaPara ver a face da morte


-De repente nunca mais esperaremos...


Hoje a noite é jovem; da morte, apenas


Nascemos, imensamente.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Docente só será promovido se fizer cursos de atualização em SP


FÁBIO TAKAHASHIda Folha de S.Paulo


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A Prefeitura de São Paulo pretende acabar com a possibilidade de os professores evoluírem na carreira apenas pelo tempo de serviço na rede.
A intenção é que os docentes tenham de aliar esse fator à freqüência a cursos de formação, como pós-graduação ou especialização.
Segundo a gestão Gilberto Kassab (DEM), a idéia é incentivar a formação dos educadores, o que poderá trazer benefícios na aprendizagem dos alunos. Já as entidades representativas da categoria dizem que a medida dificultará a evolução salarial dos servidores.
A cada avanço de patamar na carreira, o docente ganha aumento salarial de 6,5%. A rede possui 51 mil professores.
A medida está prevista no projeto de reestruturação do magistério enviado na terça-feira pelo Executivo à Câmara.
A proposta prevê também um "provão" para professores e mudanças nas jornadas de trabalho, conforme a Folha antecipou em setembro.
Critérios
Na legislação atual que normatiza a evolução na carreira, os educadores podem escolher entre três opções: critérios só relativos ao tempo de serviço na rede de ensino; avaliação apenas pelos títulos obtidos em cursos; uma combinação dos dois fatores anteriores.
Um professor com muito tempo de casa, mas com poucos títulos obtidos, em geral escolhia a primeira opção.
Exemplo: um docente que possui 12 anos de serviço e ganha R$ 1.360 pode passar a ganhar R$ 1.450 ao completar 16 anos de casa, sem precisar acumular nenhum título.
Pela proposta da prefeitura, esse mesmo docente teria que apresentar, além dos anos de serviço, a conclusão de algum curso de formação (graduação, pós-graduação, especialização ou os reconhecidos pela secretaria) para mudar de patamar.
Ou seja, ele terá de atender a critérios combinados de tempo e titulação, que serão definidos após a aprovação da lei.
A simples participação no "provão" (certificado de valoração profissional que também consta da proposta) também contará pontos.
"Queremos estimular que o professor busque atualização. Isso melhorará a qualidade de ensino", disse o secretário de Educação, Alexandre Schneider. "A maioria já faz isso."
Até a noite de ontem, a secretaria não havia informado qual a porcentagem de professores que já evoluem na carreira com base em títulos.
"Ficará mais difícil para os profissionais avançarem e melhorarem seus rendimentos", afirmou a presidente do Sinesp (sindicato que representa os especialistas da rede), Maria Benedita de Andrade. O piso salarial dos professores é de R$ 950, por 20 horas semanais.
"Devido às longas jornadas, muitos não têm tempo ou condição financeira para fazer cursos", disse o presidente da Aprofem (um dos sindicatos dos servidores), Ismael Palhares Jr. Já o presidente do Sinpeem (outra entidade representativa), Claudio Fonseca, disse que fará "pressão na Câmara" para alterar o projeto. Ele é ex-vereador pelo PC do B.
Os três sindicalistas reclamam que a proposta não prevê aumento salarial nem incorporação de gratificações (que beneficiariam os aposentados).
Schneider afirma que os docentes poderão se afastar para realizar pós-graduação (o mesmo não valerá para os demais tipos de formação) e que a incorporação das gratificações será discutida "até o fim do mandato do prefeito", no ano que vem, quando Kassab poderá tentar a reeleição.
Uma outra medida prevista é a aplicação de uma prova durante o estágio probatório (período antes de adquirir estabilidade) dos servidores, que subirá de dois para três anos.

Para Serra, ministro fez uso político de exame de alunos


O governador José Serra (PSDB-SP) afirmou ontem que o ministro da Educação do governo Lula, Fernando Haddad, fez uso político dos dados do Pisa, avaliação internacional da qualidade de ensino.
O exame apontou que o Brasil ficou nas últimas posições nas três habilidades avaliadas (leitura, matemática e ciências). E que São Paulo não atingiu nem a média nacional.
Anteontem, Haddad disse: "Com exceção do Distrito Federal, São Paulo é a maior renda per capita do país. Era de se supor que pudesse trazer as médias nacionais para cima".
Ontem, Serra rebateu: "[Para o resultado] não cabe nem prognóstico nem Fla-Flu de natureza partidária como fez o ministro. A questão é muito séria no plano da educação, e a gente precisa trabalhar todo mundo junto nisso".
O tucano disse ainda que "o ministro da Educação não leu direito o estudo. Ele devia ver que as margens de erro são muito elevadas. Por outro lado, São Paulo [representa] apenas 11% do total [da amostra], não daria para puxar [a média]".
Serra admite, porém, que é necessário melhorar a qualidade do ensino em "São Paulo e no país". "O ensino médio tem problemas no país inteiro".
Ministro da Educação na gestão FHC, Paulo Renato Souza também criticou Haddad. "A situação é ruim, mas de nada ajuda ficar tergiversando sobre os dados e botando a culpa em A ou B." Questionou ainda aspectos técnicos. "A amostra do Pisa [9.295 estudantes] não é suficiente para representar cada Estado. O Saeb [exame federal], por exemplo, é feito com uma amostra de 300 mil [na última edição, foram 195 mil]."
O relatório internacional do Pisa traz apenas dados dos países. Quem divulgou os dados por Estado foi o MEC.
Instantes após Serra dizer que "a gente precisa trabalhar junto" na educação, a titular da pasta no Estado, Maria Helena Guimarães de Castro, disse que não é prioridade de São Paulo aderir ao Plano de Desenvolvimento da Educação, do MEC.
O governo pretende, com o plano, melhorar os índices de qualidade. Para isso, conta com a adesão de Estados e municípios a um programa unificado.
Ela afirmou que ações da secretaria, como mudanças no currículo e aplicação de uma avaliação própria (Saresp), não tem deixado tempo livre para a análise do programa federal.
Sem dar detalhes, reclamou da proposta de formação de professores, que "o MEC quer obrigar" a implantar. Ela disse, porém, que as metas do programa são boas. O MEC disse que não irá impor um modelo único de preparação de docentes - só exigirá que haja formação.
Outro lado
Procurado pela Folha, Haddad, por meio de sua assessoria de imprensa, disse apenas ter recebido uma telefonema de Serra, e que conversaram sobre os resultados do Pisa e a possibilidade de adesão ao PDE.
O presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, afirmou que a aplicação do Pisa no Brasil permite, sim, a divulgação dos dados por Estado. Segundo ele, a metodologia mudou em relação à época em que Paulo Renato era ministro. Ainda assim, ele reconhece que houve problemas em alguns locais.

Brasil é reprovado, de novo, em matemática e leitura



A péssima posição do Brasil no ranking de aprendizado em ciências se repetiu nas provas de matemática e leitura. Os resultados do Pisa (sigla, em inglês, para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), divulgados ontem pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), mostram que os alunos brasileiros obtiveram em 2006 médias que os colocam na 53ª posição em matemática (entre 57 países) e na 48ª em leitura (entre 56).
O objetivo do Pisa é comparar o desempenho dos países na educação. Para isso, são aplicados de três em três anos testes a alunos de 15 anos em nações que participam do programa. O ranking de ciências, divulgado na semana passada, colocava o Brasil na 52ª posição.
Além de estarem entre os piores nas três provas nessa lista de países, a maioria dos estudantes brasileiros atinge, no máximo, o menor nível de aprendizado nas disciplinas.
O pior resultado aparece em matemática. Numa escala que vai até seis, 73% dos brasileiros estão situados no nível um ou abaixo disso. Significa, por exemplo, que só conseguem responder questões com contextos familiares e perguntas definidas de forma clara.
Em leitura, 56% dos jovens estão apenas no nível um ou abaixo dele. Na escala, que vai até cinco nessa prova, significa que são capazes apenas de localizar informações explícitas no texto e fazer conexões simples.
Em ciências, 61% tiveram desempenho que os colocam abaixo ou somente no nível um de uma escala que vai até seis. Isso significa que seu conhecimento científico é limitado e aplicado somente a poucas situações familiares.
Nos três casos, a proporção de alunos nos níveis mais baixos é muito maior do que a média da OCDE, que congrega, em sua maioria, países ricos.
Comparando o desempenho do Brasil no exame 2003 (que já era ruim) com o de 2006, as notas pioraram em leitura, ficaram estáveis em ciências e melhoraram em matemática.
Uma melhoria insuficiente, porém, para tirar o país das últimas posições, já que foi em matemática que o país se saiu pior em 2006, com médias superiores apenas às de Quirguistão, Qatar e Tunísia e semelhantes às da Colômbia.
Como há uma margem de erro para cada país, a colocação brasileira pode variar da 53ª, no melhor cenário, para a 55ª, no pior. O mesmo ocorre para as provas de leitura e ciências. No de leitura, varia da 46ª à 51ª. Em ciência, da 50ª à 54ª.
A secretária de Educação do governo José Serra (PSDB-SP), Maria Helena de Castro, diz que o resultado em leitura é lamentável. "Essa é uma macrocompetência, básica para que os alunos desenvolvam as outras, como matemática, raciocínio crítico." Nos exames, São Paulo ficou abaixo da média nacional nas três áreas avaliadas.
Suely Druck, da Sociedade Brasileira de Matemática, diz que, em geral, os alunos de outros países, assim como os do Brasil, tiveram desempenho pior em matemática na comparação com as outras disciplinas.
"A matemática se distingue das outras porque desde cedo a criança já tem que ter conhecimento teórico e é um aprendizado seqüencial, ou seja, antes de aprender a multiplicar, tem que saber somar." Por isso, defende que se exija um conteúdo mínimo em matemática para o professor dos primeiros anos do ensino fundamental, quando todas as matérias são ainda ensinadas pela mesma pessoa.
O Pisa permite também comparar meninos e meninas. Em matemática e ciências, no Brasil, eles se saíram melhor. Em leitura, elas foram melhor.

Oração de fim de ano

Mais uma etapa se encerra. O convívio valeu a pena. O aprendizado abriu novos horizontes. Viajamos em tantas áreas da ciência! Conhecemos tantos períodos da história! Viramos cientistas, atletas, malabaristas na arte de viver. Desvendamos segredos das exatas. Nos tornamos mais sensíveis. E chegamos vivos até aqui.Alguns se despedem e partem para uma nova seara. Cresceram. Amadureceram. Mudaram de tamanho e de estatura política. Vão navegar em outros mares. Outros voltarão no ano que vem. Virão com novas histórias pra contar. Virão carregados de expectativas. E tudo retornará ao seu curso. E tudo será diferente. Nada se repetirá.O fim do ano é um momento de reflexão. É um corte no tempo para que se possa rever tudo o que se viveu. É uma pausa. No turbilhão da vida, às vezes, é preciso parar. Parar e pensar. E há muito para pensar. O ano passa muito rapidamente mas passa carregado de acontecimentos que ora surpreendem e ora alimentam a rotina. Parar e até mesmo lamentar pelo que ficou faltando. Lamentar pelos projetos não executados, pelas promessas não cumpridas.É tempo de novas promessas. É tempo de renovar aquelas que parecem ter sido feitas tantas vezes, mas nunca realizadas. Não importa. O pior é deixar de planejar, é deixar de sonhar. E o novo ano não pode recomeçar sem sonho. Senão, nasce velho. Nasce embotado.Senhor, vivemos juntos mais um ano. E como foi bom. Tivemos, sim, problemas. Algumas separações. Algumas quedas. Mas estamos aqui. E temos de agradecer por estarmos vivos, juntos, dispostos a recomeçar. Não queremos o desânimo dos que acham que tudo será como tudo sempre foi e que novidade é coisa de romântico. Se for, queremos ser românticos. Queremos um coração capaz de vibrar. Queremos a fortaleza dos que não se abatem e a sabedoria dos que experimentam o novo sempre com um singelo sorriso.Senhor, obrigado por todos os meses deste ano que passou. Obrigado pelos dias mais quentes do verão. Obrigado pelo frio do inverno. Obrigado pela poesia da primavera, pela luz do outono. Obrigado pelos fins de semana e pelos dias de semana. Obrigado pelo amanhecer e pelo entardecer. Obrigado pelos problemas todos e pela disposição em superá-los. Obrigado pelas feridas e pelas cicatrizes. Obrigado, Senhor!Sei que o novo ano virá e trará suas preocupações próprias. Há muito a se fazer para que o mundo seja melhor. Quem sabe as utopias que nos alimentam se convertam em realidade no ano que virá. Quem sabe com forças renovadas sejamos capazes de lutar com mais galhardia pelos ideais que temos. Quem sabe tenhamos mais fé, mais força e mais amor. Quem sabe o céu esteja mais estrelado nas noites de lua cheia. Obrigado, Senhor! E graças ao milagre que é viver, no ano que vem prosseguiremos sonhando e realizando.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Ela faz mtas vítimas... Quem será??


"Eu sou mais mortal que uma bala de canhão.
Eu derrubo casas, quebro corações, afundo vidas
Eu viajo nas asas do vento porque espalho com muita facilidade
Nenhuma inocência é forte suficiente pra me intimidar
Nenhuma pureza é completa pra me amedrontar
Eu não tenho nenhuma consideração pela verdade
Nenhum respeito pela justiça
Nenhuma clemência pra com o indefeso
Minhas vítimas são tão numerosas quanto as areias do mar e,
Muitas vezes,
INOCENTES!
Eu nunca esqueço e raramente perdôo
Quanto mais inveja eu tenho da pessoa,
mais forte eu fico
Meu nome é.....

F O F O C A!"

.
Cuidado com ela...pode estar ao seu lado sem que vc perceba...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Ações para gostar de ler - Gabriel Chalita



Num conto denso, apesar de econômicas duas páginas, Clarice Lispector mostra a expectativa de uma menina que sonha com a leitura de Reinações de Narizinho, que uma colega prometeu emprestar e não emprestava nunca, de pura maldade. O conto se chama Felicidade Clandestina, e sintetiza a paixão pela leitura. A frase que comove pela expressividade é esta: "Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o."
Foi centrada sobre esta paixão que se desenvolve, a cada ano, em Passo Fundo, a chamada Capital Brasileira da Leitura, a Jornada Nacional de Literatura, que na semana de 27 a 31 de agosto cumpriu a sua 12ª edição. Concebida por Josué Guimarães, o escritor passo fundense autor de "Dona Anja" e de "Camilo Mortágua", a Jornada Nacional de Literatura é uma das mais louváveis iniciativas que o Brasil encontrou de divulgar este maravilhoso objeto de desejo que é o livro.
Sabemos que o Brasil lê pouco, e não é nossa intenção bater de novo nessa mesma tecla. É melhor saltar a etapa da constatação vazia e passar para soluções. Afora eventos como o de Passo Fundo, belíssimo no seu conceito e na sua forma, há muito mais que é possível fazer, no dia-a-dia, em casa mesmo, com nossos filhos ou com qualquer criança do nosso relacionamento, para desenvolver o hábito da leitura.
A primeira providência é dos pais, ao estabelecer o hábito de ler histórias para os filhos. Nietzsche relatou, em seus "Escritos autobiográficos", que sua mãe o ensinou a ler e escrever, antes mesmo que ele ingressasse na Escola Primária de Naumburg. E o ensinou tão cedo porque uma das recordações mais vivas de sua primeira infância foi a do escritório onde seu pai preparava suas pregações destinadas à pequena igreja luterana da cidade de Röcken. No escritório, estantes repletas de livros, muitos deles com numerosas ilustrações, as quais faziam daquele lugar o seu preferido na casa.
As escolas devem assumir estratégias de incentivo à leitura, também, como a leitura de contos em voz alta pelas crianças, para incentivar a expressividade e a oralidade. E dramatizações, a cargo de contadores de histórias.
Os professores, por sua vez, devem escolher livros que despertem a atenção das crianças, evitando livros que bloqueiem o desejo da leitura. Todos os autores são fascinantes, mas é necessário planejar o caminho da leitura.
A mídia pode participar ativamente, como fazem Gilberto Braga, Walcyr Carrasco e outros, divulgando em suas novelas autores nacionais e incentivando a leitura. Os programas jornalísticos também podem apoiar, divulgando, por exemplo, iniciativas populares de criação de bibliotecas nas comunidades.
E, ao final, o governo pode e deve executar ações como programas que estimulem a criança a levarem livros para a casa. Desta forma, poderemos ter mais crianças como a personagem de Clarice Lispector, que às vezes se sentava na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. "Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante." Este é o tamanho da paixão que a leitura desperta.

Sobre Deus...por Pe. Fábio de Melo

O que podemos esperar de Deus? O que nos diz a religião cristã a respeito da intervenção divina na vida humana? Como é que podemos pensar a dinâmica dessa relação?Ando pensando que o desafio de todas as relações esteja justamente em não confundirmos os papéis. Nenhuma relação humana será saudável na confusão dos papéis. Definir o que se é consiste em construir as bases sólidas que nos permitirão “esperar e também desesperar”. Já me explico. Esperar é a atitude que nos permite a serenidade de que o outro fará por nós, aquilo que não podemos fazer a sós. Desesperar é chegar à conclusão de que a vida tem limites, que terão que ser respeitados. Desesperar não significa sair gritando, esbravejando desaforos a respeito dos limites, mas consiste em serenizar o coração, aquietando-o e esperando os ensinamentos que virão do acontecimento que provocou a desesperança. E assim concluo: o desespero é o outro lado da esperança...Gosto de olhar para Deus. Gosto de esperar por ele, sobretudo nos momentos das minhas desesperanças. Olho-o como quem olha querendo decorar, aprender, incorporar. Faço inúmeros pedidos a Ele, mas tenho sempre o cuidado para que minhas preces não sejam formuladas nos verbos imperativos... Prefiro apresentar as questões, colocá-las em suas mãos e depois esperar pela vida. Tenho medo de tornar-me o deus de Deus. Receio que minhas preces sejam ordens mesquinhas Àquele que tudo sabe de mim. Por isso, eu ando dizendo que a vida é o espaço da liberdade, lugar onde me exercito como homem, desejoso de acertar e atualizar na minha vida, o único desejo de Deus para mim: a bondade. Somente a partir da bondade de Deus é que podemos dizer que Ele tudo pode. Ele tudo pode, mas o seu poder não fere, nem desrespeita o espaço humano de nossas escolhas. E viver é escolher.A teologia nos ensina que em Deus não há variação de humor. Ele é sempre amor, movimento que não sai da rota que lhe coloca na coerência de ser o que é. E por isso é fácil entender a ação de Deus na vida humana. Dizer que Ele permite acidentes, que permite doenças e que protege e desprotege é o mesmo que colocar uma contradição naquilo que Ele é. Expliquem-me, então: se Deus é amor, como posso entender que uma criança como o nosso querido Lucas tenha um câncer que viaja pelo seu corpo? Como não entender que Ele não tenha curado o nosso padre Léo de sua enfermidade tão dilacerante? Aí você pode me perguntar: “Então não adianta rezar, padre?” E eu respondo: adianta minha filha, meu filho. Rezamos, não para que Deus faça o que queremos, mas para que tenhamos forças de entender as fragilidades da vida, os limites do nosso corpo, e quem sabe, viver a surpresa da cura inesperada, quando tudo indicava que já tivéssemos chegado ao fim. Rezamos porque temos direito de pedir, de clamar, e de explicar as razões dos nossos desejos, mas não temos o direito de determinar o que Ele terá que fazer.Estamos constantemente debaixo da proteção divina. Ela não nos deixa nunca, mesmo quando não pedimos por ela. Minha mãe também me diz, quando saio de casa: “vai com Deus, meu filho! Cuidado na estrada!” Na frase de minha mãe há duas realidades a serem observadas: o dom e a tarefa. O dom está na primeira expressão: “vai com Deus.” E eu vou mesmo. Ele não sabe me deixar ir sozinho. Na segunda está a tarefa: “cuidado na estrada!” Na tarefa, a vida resguarda o espaço para a responsabilidade humana. Tenho duas possibilidades diante da fala de minha mãe: acato ou não. Se eu acato, o dom se manifesta. Se não, ele fica ofuscado na minha escolha errada.Cristianismo é isso. Não há relação saudável com Deus se não descobrimos constantemente as duas realidades na nossa vida: o dom e a tarefa. Em todas as situações humanas há sempre uma parcela de dom a ser recebida, e a uma parcela de esforço a ser executada. O milagre se dará por duas vias...Não quero confundir ninguém. Quero apenas apontar os caminhos para uma religião madura, onde Deus deixa de ser movido por nossas ordens mesquinhas, onde a oração se torna o acolhimento do dom e cumprimento da tarefa. Uma religião, que ao invés de fazer perguntas absurdas prefere o silêncio da busca que nos aperfeiçoa. Aí rezaremos com as mãos, com os pés, no trânsito, nas esquinas, e em toda parte. Retiraremos de nossa mente a resolução fácil, aquela que justifica os piores acontecimentos do mundo como vontade de Deus...Permitir... dizer que Deus permite é voltar à única permissão que Dele brota: a vida, a benção eterna, o dom que explode em todos os instantes nas menores iniciativas que geram o universo criado. A permissão é única, total e globalizante. Permissão que não contradiz em nada aquilo que Ele é.Eu o defendo sempre. Não quero que o acusem das desgraças do mundo. Quando minha irmã morreu num acidente trágico, vítima da imprudência humana, de uma bagagem que estava no lugar errado e que caiu sobre ela no momento em que o ônibus tombou, alguém quis me consolar às custas de uma acusação descabida: “foi a vontade de Deus!” E naquele momento minha mente se iluminou para que eu não permitisse que Ele fosse injustamente acusado daquele crime. Prefiro desacreditar dos humanos a ter que pensar que Deus seja capaz de matar uma mulher que precisava viver para cuidar do seu filho...Prefiro encarar a dura realidade de que minha irmã estava morta, vítima da imprudência de um motorista que transgrediu a regra, a ter que dizer ao meu sobrinho, que Deus não pensou na sua dor de menino, antes de permitir que o ônibus caísse naquela ribanceira... Preferi pensar que Deus estava chorando comigo, lamentando com meu sobrinho, consolando-o e o preparando para reacender nele a esperança que parecia diluída no ar...Mas você poderia me perguntar: "Mas padre, onde é que estava Deus no momento em que sua irmã morreu de forma tão cruel e assustadora?” E eu lhe respondo sem receio de errar: No mesmo lugar em que estava, no momento em que mataram o Filho Dele!

domingo, 2 de dezembro de 2007

O vaga-lume e a serpente




Conta a lenda que uma vez uma serpente começou a perseguir um vaga-lume.

Este fugia rápido, com medo da feroz predadora e a serpente nem pensava em desistir.

Fugiu um dia e ela não desistia, dois dias e nada ...

No terceiro dia, já sem forças, o vagalume parou e disse a cobra:

-Posso lhe fazer três perguntas?

Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar ....

-Pertenço a sua cadeia alimentar?

-Não.

-Eu te fiz algum mal?

-Não.

-Então, por que você quer acabar comigo?

-Porque não suporto ver você brilhar ...


"Pense nisso e selecione as pessoas em quem confiar"

sábado, 1 de dezembro de 2007

A evolução do conceito de justiça



"Então a justiça neste sentido é a excelência mo­ral perfeita, embora não o seja de modo irrestrito, mas em relação ao próximo. Portanto, a justiça é freqüentemente considerada a mais elevada for­ma de excelência moral, e 'nem a estrela vesperti­na nem a matutina é tão maravilhosa'; e também se diz proverbialmente que 'na justiça se resume toda a excelência"

.
Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro V


A justiça, o conceito de justiça, o anseio por jus­tiça, é um dos mais antigos e presentes temas a percorrer as instâncias do pensamento humano. Podemos encontrar esse clamor nos grandes épicos, fundadores da literatura ocidental, alguns dos primeiros registros e mapas da alma e dos desejos humanos. É por considerar-se injustiçado que Aquiles se retira da luta em que os pegos se opõem aos troianos. Também é para punir a morte de Pátroclo e, no seu ponto de vista, restaurar a justiça que Aquiles resolve voltar à luta e enfrentar Heitor. É com ânsia justiceira que Ulisses desafia os pretendentes à sua esposa e ao seu trono, assim que retorna a Ítaca, depois de dez anos de combate contra os peri­gos no mar.
O longo caminho entre esse conceito de justiça pessoal, feita com as próprias mãos, os conceitos clássicos e as instituições jurídi­cas da sociedade contemporânea, que buscam garantir uma justiça isenta e cada vez mais abrangente, é o que gostaríamos de esboçar neste artigo. Não pretendemos oferecer novidades revolucionárias sobre o tema, tampouco criar novos conceitos, mas fazer uma sin­tética reflexão sobre as variadas formas com que o pensamento hu­mano, ao longo dos séculos, se debruçou sobre o assunto.
Gostaríamos ainda de lembrar que uma reflexão sobre justiça é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre Direito e poesia, sobre aspira­ções cotidianas e sonhos, sobre doutrina, jurisprudência e utopia. A justiça é uma espécie de caminho permanente para a utopia, que não poderá nunca ser descartada do horizonte dos objetivos huma­nos. O que seria da humanidade se abrisse mão de seus objetivos utópicos?
Já que justiça e Direito são áreas contíguas, associadas, come­cemos pelo Direito as nossas reflexões. O profissional do Direito ganhou um destaque e uma valorização excepcionais nestes nos­sos tempos. Muitos pais aconselham a seus filhos o ingresso nessa área de estudo, pois a partir da formação como advogado abrem-se variadas possibilidades de carreira: juízes, promotores, delegados, diplomatas, procuradores, professores em áreas diversas. Muitos dos representantes legislativos, em suas diversas instâncias, fize­ram da formação em Direito sua base intelectual. É a prática da globalização e da universalidade - Direito civil, penal, trabalhista, previdenciário, constitucional, comercial, tributário, empresarial, ambiental, do consumidor, da informática, da bioética, da criança e do adolescente, da mulher e do homem do século XXI - em uma única profissão. E isso não é o ponto de chegada. O Direito não é uma ciência estática, evolui como evolui a pessoa humana.
Também é preciso mencionar, para que não fique uma impressão de demasiado otimismo, as polêmicas e controvérsias que percor­rem a área. Se há profissionais que se destacam por sua atuação veemente em defesa da justiça, da defesa da dignidade da pessoa humana e do exercício da ética, há outros, maus profissionais, que se corrompem, que usam o diploma, a carteira da OAB, o ingres­so numa carreira pública para cometer atos desprovidos de moral, banalizando seus valores, se distanciando da prática da ética e da justiça. Talvez seja essa espécie de profissionais que levou tantos escritores, de Gil Vicente a Tomás Antonio Gonzaga, de Camilo Castelo Branco a Monteiro Lobato, à sátira e à crítica mordaz da prática judiciária. É o comportamento dual da espécie, para quem acredita em bem e mal, em justo e injusto, em digno e indigno. Ou o comportamento e o anticomportamento para quem acredita que tal postura é mais resultado da ignorância que da escolha conscien­te. Aristóteles, Tomás de Aquino, Rousseau, Jacques Maritain se defrontaram com esses caminhos e conflitos da consciência para deixar aos que viessem depois deles a teoria do bem comum. O ser humano é essencialmente bom, mas às vezes deixa essa essência cair no esquecimento. Perde, por momentos, a consciência de sua bondade essencial e, com isso, parece abandonar suas origens, per­der a humanidade, transformar-se em coisa.
Refletir sobre a evolução do conceito de justiça é de fundamen­tal importância para a compreensão das circunstâncias do mundo contemporâneo, e também para a compreensão dos desafios lança­dos aos que se propõem a construir uma civilização norteada pelos valores de dignidade da pessoa humana, da ética, da responsabili­dade partilhada.
O ser humano é complexo e a História corrobora essa afirmativa na medida em que demonstra as muitas e perceptíveis alterações ocorridas nos desejos, nas disposições e nas expectativas humanas ao longo dos tempos.
Aristóteles sintetizava a temática humana de forma ímpar: o ser humano, assim como os animais, possui desejos; diferencia-se des­tes pela escolha, que já é uma instância superior, pois necessita da reflexão para ser exerci da; além disso, possui expectativa, o que é ainda mais nobre - a expectativa, a aspiração, é o divino no huma­no, o sonho, a utopia, o projeto que faz com que a potencialidade de vida se converta em ação transformadora.
E é a respeito dessa expectativa que se deve falar. É sobre ela que se deve caminhar. Quais são as expectativas do ser humano contemporâneo? Quais são seus sonhos? Seus projetos? Suas dis­posições? Que relação tem a justiça com tudo isso?
A expectativa por justiça talvez seja um elemento natural da espécie humana. Diante da evidência de desmandos, falcatruas, crimes e outras condutas afins, é do senso comum o desejo de res­tabelecer o que foi fraudado, punir o culpado, prender o que aten­tou contra a ordem estabelecida. A justiça, como já vimos, é urna constante aspiração da humanidade. É comum depararmo-nos com o discurso inflamado, veemente, de pessoas que exigem o ressar­cimento moral de uma situação. Moral! Aí está o senso moral cla­mando por justiça!
Apesar de toda essa inflamada veemência, pode-se observar um comportamento paradoxal desse mesmo senso comum: clama contra toda forma de injustiça, mas admite, em sua prática, muitas vezes, atos de flagrante injustiça. Cobra uma postura ética dos que estão no poder, e se deixa corromper quando esses mesmos ofere­cem alguma espécie menos justa de benefícios. O "é dando que se recebe" - muito longe do sentido inicial que lhe deu São Fran­cisco de Assis - parece se alastrar contagiando toda a população. É um grave erro aceitar insensivelmente a contradição entre o que se diz e o que se faz. Condena-se o político corrupto, mas pede-se a este mesmo político um emprego público (passando por cima dos concursos determinados pela lei), pede-se a interferência para anu­lar uma legítima multa de trânsito, anistia para uma obra irregular, ajuda para internação no hospital do servidor ainda que não se faça parte da categoria, um empréstimo em condições privilegiadas etc. Diante disso como ficam os discursos sobre a necessidade de acabar com a corrupção, com os privilégios, com as benesses infames que tiram de uns para ceder a outros? E a falta de consciência que leva a essa imoral busca de levar vantagem em tudo? Até em furar fila de padaria, ou "pegar", nas feiras livres, uma ou duas frutas a mais, dizendo a si mesmo que isso não tem nenhuma importância?
Como fica a justiça diante desses "insignificantes" comporta­mentos?
Esse é um dos temas presentes na civilização humana desde seus primórdios. Os estudos da História mostram a passagem de algumas eras nas relações econômicas e nas relações de trabalho. Dos primeiros agrupamentos, depois do período da coleta e do no­madismo da caça, ao surgimento da agricultura, o ser humano foi alterando seus relacionamentos e complicando suas necessidades e problemas. A formação do grupo facilita a caça, a pesca, a seguran­ça, o cultivo. Também propicia a disputa pelo poder, por espaço, pela posse da terra. O conforto da convivência interpessoal traz sua contrapartida. É a passagem do bom selvagem para a civiliza­ção, no entender de Rousseau. O homem, que sempre havia sido livre, absoluto em sua relação com a natureza e consigo mesmo, começa a estabelecer comparações que levam à competição. De­seja possuir mais que o necessário, quer crescer e, para isso, vê no outro um obstáculo, e como obstáculo precisa ser eliminado, tirado do caminho.
Cada povo tratou de maneira diferente tal processo de crescimento social, criando normas de conduta e conceitos de justiça em acordo com suas crenças e valores estabelecidos. Atribuindo a deuses ou a Deus o controle da história e do destino, muitos povos dominados pelo misticismo transformaram sacerdotes, reis, faraós em porta­-vozes dessas instâncias, jamais questionando os ditames prescritos por essas autoridades. Povos que viam relâmpagos, trovões, chu­vas, tempestades como avisos ou castigos das divindades e das for­ças sobrenaturais, e ao ouvirem narrações de mitos se deixavam dominar por aqueles que diziam entender essas forças. Místicos ou míticos, esses povos davam ao poder uma dimensão que correspon­dia ao extraordinário.
A Grécia surge, para o mundo ocidental, como um espaço pri­vilegiado em que essas grandes discussões acabaram, no Ágora, to­mando o rumo da fundação da democracia. É a passagem da aristo­cracia para um novo momento em que o homem grego, em grupo, debateu, discutiu, argumentou, fez escolhas e tirou conclusões.
Por volta do sexto século antes de Cristo alguns estudiosos co­meçaram a buscar explicações racionais para fenômenos que até então eram explicados pelos mitos. De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo aqui? Qual a razão de tanta diver­sidade nos elementos naturais? Qual é o elemento fundamental na composição do universo? Essas eram algumas das novas questões propostas e geraram a escola Jônica. Entre seus primeiros pensa­dores estavam Tales de Mileto, para quem a água era o princípio de todas as coisas, e Anaximandro de Mileto, que concluiu pela impossibilidade de elementos gerarem elementos, não podendo, portanto, terra, fogo e ar, serem derivados da água. Tudo teria vin­do do Ápeiron, o infinito, foi a conclusão a que ele chegou. Outros pré-socráticos se debruçam sobre o problema. Parmênides de Eleá e Heráclito de Éfeso discutem a questão do uno e do múltiplo, da inação e do movimento, da dóxa (opinião) e da alethéia (verdade). E outros ainda sugerem questões diversas que possam tranqüili­zar os homens quanto à origem e o fim de tudo. A diversidade de pensamentos caracterizou essa era cosmocêntrica, mas a base do pensamento antropocêntrico, em que o homem é o sentido do universo, ainda estava por vir. Como estavam por vir as grandes discussões sobre a justiça e o Direito, que só encontraram seu verdadeiro motivo ao tratar do homem como fundamento de sua existência.
A filosofia vai seguindo seu caminho e encontra em Atenas seus três maiores representantes: Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates refuta o direito da força, apregoados pelos sofistas como o interesse do mais forte. No belo diálogo com Eutifron, na Re­pública, descarta a afirmação feita por ele: "a justiça é a vontade caprichosa dos deuses". Sócrates afirma que "as coisas não são justas porque os deuses querem, mas os deuses as querem porque são justas". Com isso valoriza a justiça como uma forma agradável do homem viver em sociedade, e, além disso, de agradar as outras forças que estão acima da sociedade. Platão, discípulo de Sócrates, é altamente influenciado na sua elaboração do conceito de justiça, por uma espécie de experiência fundadora da injustiça: o julga­mento e a morte de Sócrates. O justo, segundo Platão, se comporta de acordo com a lei. E os acusadores de Sócrates não se compor­taram de acordo com a lei, mesmo porque outras motivações que não as jurídicas deram cabo daquele julgamento. Somente o justo é feliz, "a vida mais justa é a mais bem-aventurada". E o justo con­trola seus instintos. No mito do cocheiro, ao tratar das partes da alma, Platão afirma que é preciso que a razão controle a paixão e a agressividade. O homem não pode se deixar levar por prazeres efêmeros. Para isso, é preciso sair da caverna, seu outro mito, e enfrentar a realidade com conhecimento. À prática da justiça é imprescindível o conhecimento e a aceitação de que o justo é fe­liz, mesmo que possam existir justos infelizes.
Aristóteles, discípulo de Platão, na Ética a Nicômaco trata exaustivamente da temática da justiça. A justiça é a excelência mo­ral perfeita que advém do hábito de fazer o bem. O homem, quando virtuoso, quando justo, é o mais excelente dos animais; em con­trapartida, separado da lei, separado da justiça, é o pior de todos. Não nos parece que o Estagirita separe justiça de lei, até porque a lei é o resultado a que chega uma comunidade que busca a justiça; sem esta, aquela não teria sentido. Os legisladores são uma espécie de guardiães do bom senso, da construção sistêmica do exercício concreto de valores abstratos. É quase que uma maiêutica socrática, isto é, o que se constrói é resultado do que se é. É a exteriorização do intrínseco. O homem sempre construirá valores de justiça se for capaz de uma reflexão interior, voltada para sua essência. A con­duta tida por má só ocorre por ignorância, por distanciamento do próprio ser. Ninguém opta pelo mal. O mal é o resultado do não conhecimento do bem.
Aristóteles supervaloriza a amizade como excelência moral, afirmando que a amizade é ainda melhor que a justiça, pois mesmo havendo justiça ainda é precisa a amizade, e diante da amizade a justiça se faz desnecessária porque já foi alcançada... os amigos verdadeiros jamais serão injustos!
Durante a Idade Média, período em que dominou o pensamen­to teocêntrico, encontramos filósofos como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. É a volta do platonismo e do aristotelismo. Para Agostinho, principal expoente da patrística, existe uma lei natural, fundada no Autor, no Artífice da natureza. Essa lei é a lei do amor e da bondade, é universal e imutável e todo ser humano deveria conhecê-la e observá-la. O respeito a essa lei constitui a virtude da justiça. Agostinho nega a existência do mal metafísico. Afirma que o homem pode fazer o bem ou deixar de fazê-la. A essa omis­são, convencionou-se chamar de mal; entretanto, em essência, não existe. Com isso quer ratificar o conceito dos gregos de que a não observância da justiça é mais ignorância do que opção. Os homens se distanciam por não conhecerem a verdade e o bem. Realizam práticas nefandas porque não sabem que em essência são imagem e semelhança do Criador e por isso são bons.
Tomás de Aquino vê na lei o caminho para o bem comum e para isso distingue três espécies de lei: a eterna, a natural, a positiva.
A lei eterna é divina. É imutável. É universal. De Aristóteles retoma o conceito de motor imóvel que move os motores móveis. Todo o universo se movimenta graças a esse motor primeiro.
A lei natural é conhecida pela razão humana que participa como centelha da razão divina. É esse conceito de bem e de justiça que não é ensinado; é conhecido racionalmente.
A lei positiva é obra do legislador. É legítima desde que respeite a lei eterna e a lei natural. Quanto à justiça, sua essência, em To­más, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, segundo uma igualdade, objetivando sempre o bem comum, que é a justiça social ou geral.
A Idade Moderna encontrou eco em pensadores como Tomás Morus, Francis Bacon, Etienne de Ia Boétie para a continuidade da trajetória e da experiência filosófica do homem. Pensadores utópi­cos - um deles é o próprio criador dessa palavra - que edificaram obras marcadas por um inconformismo com a situação das coisas vigentes em seus estados.
A utopia, escrita por Morus, descrição de uma ilha em que tudo funcionava de maneira absolutamente determinada, parece ser a primeira obra filosófica eminentemente comunista. Tudo era co­mum a todos. Ninguém era detentor de coisa alguma. As pessoas moravam ora na cidade e ora no campo. A cada dez anos muda­vam de casa para que não se apegassem a bens materiais. Todos tinham tudo o que era necessário à sobrevivência e ninguém es­tava excluído. Em relação aos advogados, Morus dispara todo tipo de crítica. A mentira, os desmandos, as tramas eram imperdoáveis. Em A utopia, sociedade perfeita, advogados eram dispensáveis. Era melhor que se falasse diretamente ao juiz, era melhor que se expusesse a questão sem as tortuosas voltas percorridas pelos ad­vogados, que levavam ao engodo. Este era seu conceito de justiça.
Francis Bacon, na Nova Atlântida, faz um esboço de sua socie­dade ideal, constituída a partir do conceito do saber. No centro da ilha ficava a Casa de Salomão, local em que todas as informações necessárias, de todas as partes do mundo, se faziam presentes. E to­das as pessoas tinham acesso a essas informações, condição funda­mental para que o detentor do saber não escravizasse o excluído do saber. Saber é poder, vaticinava Bacon, e para construir uma socie­dade ideal era preciso permitir a todos o acesso ao saber. O medo, a escravidão, a alienação, a apatia, a ingenuidade, tudo decorre do desconhecimento. A edificação da justiça depende da distribuição igualitária do conhecimento.
La Boétie, jovem pensador francês, escreveu sua obra intitula­da O discurso da servidão voluntária para denunciar o estado de injustiça que grassava em seu país. Não é possível, proclamava o filósofo, que um rei imponha tanto medo, tanta tirania contra uma multidão de seres humanos. Seres humanos que nasceram para a liberdade e que se acostumam à servidão ou que até optam pela servidão ou participam dela. Qualquer que seja a razão, costume, medo ou participação na tirania, o homem nega sua essência ao deixar de ser livre, e isso não é justo, e isso não é humano. Negar a liberdade é negar a justiça, é negar a humanidade.
Navegando em outros mares, nesse mesmo período histórico, o florentino Nicolau Maquiavel, em seu O príncipe, traça o perfil do homem no poder e analisa minuciosamente o seu exercício. Des­mitifica e desmistifica o conceito de poder. Tira-o do domínio do divino e o traz para a esfera humana. Trata-o não como coisa, mas como processo e enquanto processo é um toma-lá-dá-cá constante. Ninguém assegura que chegar ao poder significa sua mantença. Para isso é preciso fortuna (sorte) e virtú (mais do que virtude). E para isso é preciso também conhecimento. O florentino, ao tratar de estados com príncipes hereditários, de estados eclesiásticos, de guerras oriundas de decisões equivocadas, de exemplos de governantes que erraram ou que acertaram, mostrou-se um grande observador da ciência política. Sua obra é um marco do conhecimento hu­mano e das relações de poder. Muitos o criticaram achando que seu único objetivo era chegar ao poder e nele se manter. Rousseau resgata Maquiavel, afirmando que o filósofo não escreveu para o príncipe, porque este já dominava os ensinamentos apregoados por Maquiavel. Escreveu para o povo, para que o povo, ao conhe­cer os mecanismos de poder, conseguisse se libertar da escravi­dão e da tirania. Entretanto, como não poderia, naquela época, oferecer a obra ao povo, preferiu oferecê-Ia a Lourenço de Médici. Há outras razões não tão humanistas que levaram Maquiavel a oferecer-lhe a obra. Ele desejava retomar espaço e influência na nova fase política de Florença. Entretanto, o que nos importa aqui observar é a necessidade vital de conhecimento, seja na reflexão utópica, seja no realismo político. Conhecimento é imprescindí­vel para se atingir o poder, para mudar a realidade, para chegar ao Direito, para a justiça.
Montesquieu, já no século XVII, parte do conceito de que "antes que houvesse leis, existiam relações de justiça possíveis"; e conti­nuava: "Dizer que não há nada justo ou injusto, a não ser o que é ordenado ou proibido pelas leis positivas, é o mesmo que afirmar que, antes de traçarmos um círculo, os raios não eram todos iguais".
Com isso, o pensador quer valorizar essa tendência humana de de­senvolver o que é justo. É a crença de que há uma lei natural que governa os governantes e que governa os povos da terra. Não pode­ríamos, portanto, como já vimos em Tomás de Aquino, afastarmo­-nos desse princípio primeiro que é também o princípio primeiro de justiça, que se faz presente na razão humana.
Em razão da premência de espaço, vamos dar um salto na Histó­ria e tomar algumas considerações feitas por Hans Kelsen logo após o prefácio de sua obra O que é a Justiça:

Quando Jesus de Nazaré, no julgamento perante o pretor romano, ad­mitiu ser rei, disse ele: 'Nasci e vim a este mundo para dar testemunho da verdade! Ao que Pilatos perguntou: 'O que é a verdade?' Cético, o romano obviamente não esperava resposta a essa pergunta, e o Santo também não a deu. Dar testemunho da verdade não era o essencial em sua missão corno rei messiânico. Ele nascera para dar testemunho da justiça, aquela justiça que Ele desejava concretizar no reino de Deus. E, por essa justiça, morreu na cruz.
Dessa forma, emerge da pergunta de Pilatos - o que é a verdade? -, através do sangue do crucificado, urna outra questão, bem mais veemen­te, a eterna questão da humanidade: o que é a justiça?
Nenhuma outra questão foi tão passionalmente discutida; por ne­nhuma outra foram derramadas tantas lágrimas amargas, tanto sangue precioso; sobre nenhuma outra, ainda, as mentes mais ilustres - de Platão a Kant - meditaram tão profundamente. E, no entanto, ela con­tinua até hoje sem resposta. Talvez por se tratar de uma dessas questões para as quais vale o resignado saber de que o homem nunca encontrará uma resposta definitiva; deverá apenas tentar perguntar melhor.

Kelsen prossegue na obra tentando objetivar o conceito de jus­tiça. Trata-se de uma norma jurídica, não de uma norma moral ou religiosa. Não fosse norma jurídica não seria possível mensurá-Ia, exigi-Ia. O ser humano é absolutamente subjetivo e se conceitos de tal importância ficarem apenas no campo das discussões abs­tratas, nada de concreto poderá ser feito para a edificação da jus­tiça. A tese de Kelsen encontra respaldo na própria complexidade e diversidade de explicação a respeito de justiça. Em uma linha liberal, a justiça poderia ser definida como o dar a cada um segun­do seus méritos. Já o socialista, dar a todos de igual ordem o que necessitem, sem exclusão. Então, o mais objetivo é o dar a cada um conforme os seus direitos legais, pensa Kelsen. O que está posto. O que está escrito. Entretanto, a questão não é tão simples assim.
Como vimos, historicamente a questão do acesso ao conhecimento é de fundamental importância para se chegar a um conceito de jus­tiça. Os excluídos, os que não têm consciência do próprio direito, os que não sabem ler ou que não sabem entender o que lêem, os que não têm acesso aos mecanismos que trazem a informação estão também alijados da justiça. Os que têm medo pela própria falta de conhecimento talvez se sintam diminuídos ao buscar uma delega­cia de polícia, um fórum ou um organismo que cuide de seus di­reitos. No caso da Justiça do Trabalho, quantos empregados dizem com orgulho que lá (nesse organismo judiciário) ele é tratado de igual para igual com seu patrão. Imaginem se o juiz utilizar uma linguagem inacessível. Basta isso para fazê-Io sentir-se diminuído. E o espaço democrático acaba se tornando amedrontador. Aliás, não se pode pensar o Direito sem a democracia. E democracia de fato. Ou o povo tem acesso e consciência, ou a assertiva de que to­dos são iguais perante a lei será ineficaz.
O mundo contemporâneo está cheio de tentativas de explicação para esse complexo e abstrato valor. Tão complexo quando a so­ciedade. O direito que se estabeleceu em bases sólidas, segundo o positivismo, começa a repensar sua atuação. Há tantos fenômenos marcando a evolução do ser humano que o Direito não pode ficar à margem. A bioética traz questões fulcrais: a venda de órgãos huma­nos, a venda de óvulos de modelos de beleza para obter a geração de "crianças superiores". Esse nefando conceito de raça superior, infelizmente, costuma reaparecer, mesmo depois de banido.
As relações de trabalho - o ser humano virando uma empresa, perdendo direitos conquistados a um alto custo em nome do di­reito à sobrevivência. O mundo cibernético, a Internet como livre rede de informações, mas também de crimes, de consultas sérias, mas de exibição de corpos infantis em situação vergonhosa. O Di­reito internacional e suas propostas pluralistas em oposição a uma proposta imperialista, sua defesa da soberania aliada à integração. O Direito público e os intricados mecanismos de burlar a ordem legal para se chegar ao poder e nele, sem prazo, continuar. As ques­tões pertinentes à teoria da pena. O senso comum exigindo, muitas vezes, a volta da vingança privada ou pública como uma forma de resgate da justiça. O direito à informação, mas também o direito à privacidade. O direito de receber, mas o direito de ser deixado em paz quando preferir não receber. As questões ambientais e o direito à vida ameaçado pela insólita falta de água no planeta da água. O direito ao exercício da própria cultura conflitando com o direito ambiental (no caso dos animais) - a Constituição brasileira garante que um animal não deva ser submetido a crueldade, mas a cultura preserva a farra do boi em Santa Catarina.
O poder da mídia que gera opiniões contraditórias, que conduz a massa de um lado a outro, que impõe o domínio da política nefan­da sobre o domínio da técnica, que usa, muitas vezes, um discurso enganador para ludibriar algo ou alguém e se atingir determinado fim. E onde fica a justiça? No plano da abstração ou do concre­to? Nas discussões fechadas ou no cotidiano das ruas? Talvez, nos dois lugares. Não se pode perder de vista que o empobrecimen­to dos valores conceituais construirá uma sociedade ainda mais ignorante e mais distante dos valores universais. De outro lado, não se pode desprezar o emaranhado de coisas acontecendo no dia-a-dia e provando que não há justiça nenhuma neste país ou neste mundo. As filas intermináveis para o atendimento médico, enquanto se prevê o direito universal à saúde; a luta incessante para se conseguir um espaço em alguma escola pública, enquanto a Constituição preceitua o livre acesso de todos à educação. Os mo­tins, as chacinas em locais públicos como a Febem e as penitenci­árias enquanto se trata do dever do Estado dar proteção às pessoas que se encontram sob sua tutela. Sem falar da atuação vergonhosa de vereadores, deputados e outros representantes do povo em suas diversas instâncias. O que estão fazendo? Comprometidos e envol­vidos num mar de corrupção e ainda de falta de identidade. Quan­tos sabem qual o papel de um legislador? E a justiça?
Como podemos invocar esses milênios de conhecimento a res­peito da justiça enquanto, na prática, o povo assiste a um distan­ciamento desses princípios, de tal ordem que seus valores se vão banalizando? É o que Tércio Sampaio Ferraz mostra ao levantar o problema da destruição da justiça enquanto sentido unificador do universo moral do homem. Destruir a justiça é destruir o Direito. A justiça confere ao Direito um significado, uma razão de existir.
E Miguel Reale pontifica, em sua Teoria tridimensional do Direito, que "Direito é a concretização da idéia de justiça na pluridiver­sidade de seu dever-ser histórico, tendo a pessoa como fonte de todos os valores". E a pluridiversidade é um conceito fundamental. Trabalhar com diversidade religiosa, cultural, ideológica, de raça, de etnia, de gênero, de classe social é trabalhar e conviver em um mundo plural. Respeitando e construindo o conceito de respeito.
O problema da justiça não é exclusividade do Brasil. O mundo todo tem problemas na ordem política, econômica, na violência, na corrupção, na educação e outros. A imagem que internalizamos, de que somos inferiores, não nos eleva a patamar algum. É preciso recuperar a auto-estima cidadã, isto é, o papel que podemos exercer na transformação dessa sociedade em que estamos inseridos. Para­fraseando e recriando Chaplin, precisamos de mais que leis, preci­samos de humanidade. As leis não resolvem todos os problemas e não constroem, somente elas, a justiça. É o hábito da virtude, que defendia Aristóteles, hábito que depende da educação, educação que depende da vontade política dos governantes. Mas, como não podemos viver de lamúrias, é preciso fazer alguma coisa e não ficar apenas esperando soluções que venham de outros lugares. É possí­vel e é preciso lutar pela justiça.
E lutar pela justiça é obrigação de todo ser humano, mas é ainda maior para aquele que optou pela área do Direito. É a prática como juiz, como promotor, como advogado que nos permite restabelecer o que deve ser restabelecido. Apenas com o uso da linguagem o juiz pode fazer com que o cidadão à procura da justiça se sinta valorizado ou inferiorizado. Em seu julgamento, pode restabele­cer a justiça ou negligenciá-Ia. Cada julgamento é uma história. É uma história de vida. E as partes, como dizia o saudoso mestre André Franco Montoro, não são números, fichas, coisas, são seres humanos. O juiz pode pensar que, dependendo de sua decisão, ao conceder ou não a guarda, ao determinar que se reintegre ou não a posse, ao exigir que o patrão pague mais ou menos ao empregado, ao prender ou ao soltar, constrói ou destrói humanidade. Na práti­ca da advocacia, o advogado pode-se mostrar zeloso, preocupado com cada causa ou negligente, distante, despreocupado se o cliente passa na prisão mais tempo do que devia, afinal é apenas mais um.
É na atuação de defensor da sociedade que o promotor encontra espaço para ser minucioso, competente, justo em sua função; e o delegado de polícia que busca a verdade sem se valer de meios ilícitos, sem cometer crime, sem espancar, sem colocar em situação humilhante o preso, também está na luta pela justiça.
O Direito não pode estar à margem das transformações sociais. Não pode viver ensimesmado, sem olhar para o mundo, apenas es­perando que o legislador crie nova lei e que o interessado se dirija às cortes para reclamar seu direito. A democratização do acesso à justiça já é garantia constitucional. A linguagem tem de ser adequa­da ao auditório, que precisa entender os termos técnicos que regem essa área, senão os cidadãos não terão seus direitos garantidos, não terão atendidos os pressupostos mínimos da democracia. Thdo isso está nas nossas mãos. É preciso acreditar, e se acreditarmos as coi­sas começarão a mudar. Senão, o que estaríamos fazendo aqui? Por que escolher essa profissão?
Há uma antiga história que fala de uma comunidade de animais que viviam felizes em seu reino. Todos eram justos uns com os ou­tros e tudo funcionava perfeitamente bem. Havia um lago em que os animais se lavavam, bebiam água, nadavam e alguns até viviam nele. Certa feita apareceu um alce gigante que começou a beber e a beber toda a água do lago. E, além disso, também batia forte com os pés na margem, de modo que a terra ia cedendo e o lago ia ficando mais raso. Os animais começaram a entrar em pânico sem saber o que fazer. Os castores desesperados, os coelhos correndo para lá e para cá sem encontrar a solução. As lontras nervosíssimas, e os peixes nem se fale. Morreriam todos a qualquer momento.
Os animais tentaram de alguma forma espantar o alce. Mas tive­ram muito medo, o alce era gigante e nada podiam fazer. Até que uma mosca se ofereceu para afastar o alce para longe. Os animais, apesar do nervosismo, desataram a rir. Que poder tinha aquela mos­ca pequenina para afastar um alce gigante? A mosca nem se impor­tou com os risos. Disposta a fazer o serviço dela, foi em frente.
Pousou em uma das patas do alce e mordeu com toda força que tinha. O alce batia com a pata para se livrar da mosca. E cada vez que batia a mosca levantava vôo e ia morder outra parte do corpo, zumbindo. De novo mordia e fazia barulho. E assim foi deixando enlouquecido o alce, que se pôs a correr completamente fora de si, e como não conseguia se livrar daquela maldita mosca, fugiu para longe do lago e nunca mais voltou.
A mosca ficou muito feliz com a conquista e gritou para os ou­tros animais: "Mesmo o pequeno pode combater o forte se usar sua cabeça para pensar".
Esse é o nosso desafio. Se nos sentirmos impotentes e nadando contra a maré, nada poderemos fazer e tudo continuará do jeito que está. Se nos enchermos de força, de garra, de competência e de luta conseguiremos fazer alguma coisa por esse povo que clama e que necessita de justiça. O ideal que motivou pensadores de todos os tempos a refletir e a fazer justiça é o mesmo que nos motiva. Neste milênio que se inicia, o que faremos para dar novas respostas aos mesmos problemas? O humanismo integral de Jacques Maritain, o homem todo e todos os homens. A coragem de Rui Barbosa ao es­crever aos moços, a expectativa de Mário de Andrade: o que farão esses moços? O que farão esses juristas?, perguntamos nós. A since­ridade de Mário Quintana: "e no dia em que tratares a um dragão de Joli, ele te seguirá por toda a parte como se fosse um cachorrinho". Essa é a sonhada civilização do amor desejada por Aristóteles: onde há amizade, nem a justiça é necessária.
Os numerosos movimentos de solidariedade, as ONGs que tra­balham na recuperação de pessoas no mundo inteiro, o trabalho voluntário de uma legião que entendeu o prazer gratificante da doação voluntária, tudo isso prova que Aristóteles continua cor­reto. É preciso, pois, mudar a mulher e o homem; mudando-os, mudaremos o mundo. É uma utopia? A justiça é uma utopia? Para alguns sim, e nada há para ser feito, já que a utopia é inalcançável. Para nós, a justiça não é uma utopia - é uma realidade que pre­cisa ser construída diariamente. Não podemos cruzar os braços. Os omissos, os covardes, os acomodados deixaram de sonhar e ao deixarem de sonhar, como diria o poeta, deixaram de viver. É claro que só o sonho não resolve. É preciso fazer. É preciso ter alma de poeta e mãos de obreiro. Se não tivermos a alma do poeta, esqueceremos até o motivo que nos levou a optar pela profissão do Direito e da justiça. E se não tivermos mãos de obreiro, ficaremos em belos discursos e belas palavras e bela roupagem. E o resto? Comecemos!



Revista da Universidade Gama e Souza, Rio de Janeiro, novembro/2007

PENSAMENTOS